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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Parabéns ao Mente Livre!

Parabéns ao conterrâneo Mente Livre pelo seu primeiro aniversário (celebrado ontem). Numa era em que muitos se calam para não serem prejudicados e outros se tapam com o anonimato para vocifrar contra quem discordam, é bom entrar num espaço onde as ideias têm voz própria. Mais uma prova de que ter uma ideologia política não é, nem tem de ser, sinónimo de colocar um espartilho no pensamento. Levantar questões e reflectir sobre elas é a melhor forma de percorrer o caminho para o futuro e de manter a sanidade nesta sociedade cada vez mais espartilhada. Que venham mais assim!

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A fusão dos sentidos com os prazeres das ilhas

Angra do Heroísmo (Foto: LBulcão)

Para encerrar as férias em grande, nada como a fusão dos sentidos com os prazeres que só as ilhas têm para oferecer. A delicadeza de umas cracas fresquinhas a desfazerem-se na boca e a intensidade de umas lapas grelhadas a prender-nos o paladar. O cheiro da maresia que nos entra pelo nariz dentro e o calor da areia que nos emprenha os sentidos. O vento a despentear-nos pelas encostas mais altas e o silêncio da terra que vem das profundezas. A cor das fachadas e das varandas floridas, que vão serpenteando a cidade e as suas calçadas. A magnitude da noite e das conversas perdidas por entre ruelas singelas e esplanadas sentidas. O sorriso das gentes que fazem da estrada o seu trilho pedestre, carregando na alma votos eternos e desejos secretos. A energia da música que nos preenche a alma e o valor das amizades que não se perderam nas ruínas do tempo. Foi assim o meu último fim-de-semana de férias nos Açores. Quase perfeito!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bossa Nossa!!!


Foto: LBulcão

Depois de muitas tentativas frustradas, consegui finalmente passar pela ilha Terceira em dia de concerto do Bossa Quartet (agora Bossa Quinteto), um grupo terceirense que está a virar uma instituição, com fãs em crescendo e fama merecida. A imagem não está perfeita, mas dá para terem uma ideia do excelente ambiente que se viveu sábado à noite na esplanada do Café Central, em Angra do Heroísmo. As cadeiras não chegaram para todos os que aparecerem e a escadaria da igreja virou um animado anfiteatro. Com Claudiana Cau na voz, Duarte Dores na Guitarra e voz, Paulo Cunha no baixo, Rui Melo no saxofone e Dudu Costa na percursão, este Quinteto é uma aventura açoriana pelos ritmos brasileiros da Bossa Nova, MPB e Samba. Cinco nomes que são, sem dúvida, sinónimo de uma noite muito bem passada. Por mim, repetia já amanhã...

Quando todos os caminhos da Terceira vão dar à Serreta


Fotos: LBulcão


Não conhecia a tradição terceirense de fazer romaria a pé até ao santuário da Serreta por ocasião da festa de Nossa Senhora dos Milagres, mas confesso que fiquei impressionada com o que vi no último fim-de-semana. Só no sábado à tarde, e no espaço de três horas, contei mais de 700 caminhantes entre Angra do Heroísmo e a Serreta, um percurso que ronda os 20 km e que a maioria faz em cerca de 7 horas de caminhada. Ao todo, terão sido certamente mais alguns milhares, a ver pela afluência das ruas, que começou na quinta-feira e se prolongou pelo domingo dentro. Vinham de todos os cantos da ilha e não se pode dizer que fossem romeiros típicos. Uns iam de chinelos, outros de ténis, alguns mesmo descalços, mas havia-os de todos os géneros: velhos e novos, crianças e jovens, pagadores de promessas e escuteiros, casais e grupos, desportistas e solitários. A maioria trazia mochilas às costas ou garrafas de águas nas mãos, mas também se viam velas de vários tamanhos e feitios e outros que não traziam nada mas paravam em todas as tascas ou roulottes que apareciam pelo caminho. O passo dependia do ritmo e do cansaço, mas todos mostravam uma vontade inabalável de chegar à Serreta. E fossem quais fossem os seus motivos, a verdade é que provaram que só lá vai quem quer. E quem quer pode.

sábado, 19 de junho de 2010

Três anos a navegar nesta ilha

Passaram três anos desde que publiquei o primeiro post neste blogue, um espaço que não nasceu por acaso, como lembrei aqui por ocasião do segundo aniversário. Ao longo destes três anos, inteiros e redondos, "A ilha dentro de mim" tem sido sempre "o lugar onde consigo ver para além do horizonte", seja qual for a latitude desse horizonte. Da poesia à literatura, do jornalismo à política, da actualidade à intemporalidade, vou navegando entre os estados de alma que consomem a minha açorianidade e a necessidade de ir além do rio que vejo da minha janela. Em dia de aniversário, espero apenas continuar a verter aqui os pedaços de mim que precisam navegar por esse mundo fora. Que a viagem continue, de preferência na companhia de todos aqueles que de vez em quando ousam cruzar esta rota. Um brinde ao futuro!

domingo, 3 de janeiro de 2010

Desejos para um outro futuro

Agora que o Ano Novo já entrou e o regresso à rotina tem de se fazer, deixo aqui um punhado de votos para este 2010: que os vossos sonhos se intensifiquem, para que não se sintam vazios; que os desejos se realizem, para que acreditem no futuro; que as vontades não esmoreçam, para que vejam o mundo mudar; que as forças não diminuam, para que a vida não perca a graça; desejo sobretudo que nunca percam a capacidade de caminhar em direcção ao que os vossos olhos não alcançam.
Feliz 2010!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Círculo redondo

O mundo é um círculo redondo
que se completa na eterna concidência
das amizades que sobrevivem
às confusas geografias do tempo e do espaço.


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A marca das coisas que importam

À velocidade que as coisas acontecem, uns dias longe da Internet parecem já uma eternidade. Mas entre a velocidade virtual e a real, há todo um misto de sentimentos e emoções que não se perdem na voracidade do tempo. Foi assim que passei os últimos dias, a descobrir um outro lado da ilha Terceira. Por entre brumas dominadoras, folias importadas e tradições ancestrais, houve tempo para sentir a paisagem, a arquitectura e as pessoas. Estreitaram-se laços de sangue, retomaram-se amizades perdidas, apreciaram-se prazeres quase esquecidos. No final, o regresso fez-se com uma tranquila incerteza. Ou não fosse a inquietude a marca das coisas que importam.
Foto: LBulcão

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Uma pausa para pensar a política

Mesmo em plena campanha eleitoral, pensar a política continua a ser uma necessidade urgente, por isso deixo aqui uma recomendação para a leitura do post do Máquina de Lavar sobre a renovação partidária, a que acrescento o meu próprio contributo:
1º A meu ver, a falta de interesse dos cidadãos e a indisponibilidade para trabalhar pelo bem comum são talvez os sintomas mais graves do estado da nossa política. Muitos pensam que estão a castigar os políticos com a abstenção, mas estão antes deixar-lhes carta branca para decidirem a seu bel prazer. Acredito que se todos nos empenhássemos numa cidadania mais activa, a política teria mais valor. Mas na política, como na vida, não basta exigir tudo a todos - é preciso também dar uma parte de nós. O primeiro grande passo a dar passa talvez pelo combate ao crescente egoísmo da nossa sociedade. O maior problema é que é muito mais fácil olhar para o nosso umbigo do que para o dos outros...
2º A limitação de mandatos é como a lei da paridade - não deviam ter de existir numa democracia saudável, mas às vezes são muito necessárias...
3º Acho que a renovação é necessária nos partidos, mas a experiência e a sabedoria da idade não podem ser menosprezadas. Nem nos partidos, nem na vida. Na nossa sociedade há uma tendência para menosprezar os mais velhos, como se fossem trapos, mas a idade e a experiência são óptimos conselheiros. O problema maior são os vícios (os do sistema e os outros), que muitas vezes se instalam por falta de gente nova que os combata com energia. Quando aos 27 anos assumi a co-direcção do Tribuna das Ilhas, tinha um director com 75 anos e foi uma das experiências profissionais mais enriquecedoras que tive. Ganhei eu, ganhou ele, ganhou a jovem equipa, ganhou o então recém-nascido jornal e ganhou sobretudo a ilha, que ficou enriquecida com o trabalho realizado em conjunto. Talvez se novos e velhos trabalhassem juntos mais vezes, tudo fosse bastante diferente. Na política e na vida.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Falta de jeito para a Educação Física não é desculpa

Um post do blogue Máquina de Lavar sobre um absurdo do sistema educativo desencadeou um interessante debate, que julgo merecer também aqui a devida atenção. O absurdo em questão diz respeito à contagem da nota de Educação Física para efeitos de acesso ao Ensino Superior, contra a qual o autor do post manifesta a sua indignação - excessiva no meu entender.
É já do conhecimento geral, ou devia ser, que a prática desportiva é tão boa para a saúde e para as relações sociais como para o espírito competitivo e a destreza mental, entre outras capacidades que são amplamente desenvolvidas pela prática de desporto escolar e de competição (não estamos aqui a falar de idas aos ginásio ou jogging matinal).
Em tempos idos, um selecionador nacional de basquetebol disse num estágio açoriano uma coisa que guardei para a vida: qualquer bom desportista tem obrigação de ser um bom aluno, porque tem as competências básicas para isso. Ele não falava do talento inato, mas da inteligência que é necessária para aplicar da melhor forma esse talento na prática desportiva. Dizia ele que a capacidade de aplicar essa inteligência na prática desportiva podia ser aplicada em qualquer outra actividade, desde que o atleta se esforçasse para isso.
Da mesma forma, qualquer aluno inteligente pode ser um bom desportista desde que se aplique minimamente no desenvolvimento das suas aptidões. O talento sem treino não faz campeões. Da mesma forma que a inteligência sem estudo não faz alunos brilhantes. O problema é que muitos nem se dão ao trabalho de se esforçar, como provam muitos marrões enferrujados e outros tantos campeões internacionais de futebol afamados pela sua cultura de ignorantes.
A desculpa da falta de jeito que os alunos marrões usam para não se esforçarem minimamente na realização dos exercícios físicos obrigatórios é a mesma que outros usam para a matemática. Mas isso não impede, nem deve impedir, a contabilidade da sua avaliação final. Se a matemática requer estudo, a educação física requer treino - dentro e fora da escola.
Não há dúvida de que os alunos com boas notas a Educação Física estarão melhor preparados para lidar com as dificuldades futuras e os stresses da competição académica, independentemente da área que seguem e das notas nas outras disciplinas. E isso não é, nem pode ser, mau para o acesso ao Ensino Superior.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Dois anos nesta ilha

O tempo escorre-nos por entre os dedos, mas o calendário não perdoa. Foi já há dois anos que nasceu A ilha dentro de mim, um pouco escondida dos amigos e de olhares cibernéticos mais indiscretos. Começou por ser um espaço para limpar a alma, então dormente por uma perda sentida e bastante enfraquecida na distância. Depois, o meu mundo foi mudando e este blogue com ele.
As responsabilidades profissionais arrastaram-me numa vida louca e sem intervalos, que colocou este espaço quase em banho-maria durante o seu primeiro ano. Houve apenas lugar para uns enxertos sentidos, embora muito esporádicos. Depois, veio o Verão de 2008, altura em que decidi agarrar a vida com as duas mãos e recuperar a sanidade profissional (para não perder a mental). Voltei a ter uma vida de gente e dei um novo rumo a este espaço, que começou a ganhar algum movimento.
Entretanto, o fim do Gado Bravo - onde desde 2004 ruminava ideias sobre o lado menos poético da vida - começou a deixar a minha veia de cidadania entupida. Tão entupida que o inevitável aconteceu: a prosa de intervenção irrompeu aqui também, fazendo com que esta ilha virtual fosse «tudo menos um lugar estanque».
Dois anos depois, as primeiras palavras que aqui postei continuam a fazer todo o sentido. «Mais do que um cais de partida para aventuras insensatas, ou um porto de abrigo para as tempestades irrequietas, a minha ilha é o lugar onde consigo ver para além do horizonte.»

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Em reflexão


A Sexta-feira Santa não é só mais um feriado.
Mas se o é num País cada vez menos católico,
então, talvez nem devesse ser feriado.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Epitáfio a um par de óculos

Quase nunca dei por isso, mas nos últimos vinte anos eles estiveram sempre lá. Não escrevi uma linha, não li uma frase, não alinhavei um só texto sem a sua ajuda. Se não fossem eles, nada teria feito com as palavras e o mundo das letras seria ainda uma miragem fora do meu alcance. Graças a eles, desbravei mundos e universos, entrei em dramas e romances, vivi amores e desamores, conquistei momentos perfeitos e inesquecíveis. Com eles, vi mais além e fui aonde me era interdito. Mas só agora, que os arrumo para sempre naquela pequena caixa preta, percebo isso. Na hora da despedida, resta a certeza de que guardarei para sempre as memórias que me ajudaram a trilhar.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O 2009 que eu desejo

As boas vindas a 2009 (Crédito: Agência Zero)


Regressada da ilha e da viagem pela memória dos sentidos, é tempo de entrar no futuro que o Novo Ano nos quer trazer. Mas porque este Réveillon me esqueci das passas, deixo os meus 12 desejos para 2009, na esperança de que este mundo virtual os torne eternos:


1- Que o tempo corra mais devagar do que o relógio,
2- Que a esperança floresça sem ser na Primavera,
3- Que a saúde seja mais forte do que o corpo,
4- Que o dinheiro seja o suficiente para não me tirar o sono,
5- Que o meu filho cresça livre de perigos,
6- Que o meu marido volte sempre do mar,
7- Que os laços de sangue sejam mais fortes do que a Natureza,
8- Que os amigos não esqueçam a morada cá de casa,
9- Que os inimigos me olhem sempre com respeito,
10- Que o trabalho me dê prazer,
11- Que a escrita me faça uma pessoa melhor,
12- Que quem me esteja a ler saiba aproveitar o melhor que o Novo Ano vai trazer e enfrentar de pé o pior que possa aparecer.

Feliz 2009 para todos!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Pensar a vida a escrever

Reli há pouco, com prazer, a entrevista do escritor V. S. Naipaul (Prémio Nobel da Literatura em 2001) ao Suplemento P2 do Público, publicada a 26 de Novembro último, e quero aqui reter uma frase que me marcou acima de todas as outras: «Não é a viagem sozinha que nos muda, é o acto de a escrever, de pensar. Muitas vezes não sabemos o que pensamos sobre certa experiência até escrevermos sobre ela.»
Falando sobre a imperatividade do escritor viajar para conhecer o mundo, Naipul acaba por descrever a escrita como uma forma de clarificar a vida e os sentimentos que por vezes nem sabemos que temos. É como se só vivessemos plenamente aquilo sobre o qual escrevemos.
A ideia pode parecer disparatada para muitos, mas para mim faz todo o sentido. Mais do que pensar enquanto escrevo, eu penso a escrever. E sei que quando me sento a escrever sobre as experiências que vivi esse passado parece ganhar vida própria. No fundo, é como se eu própria só vivesse enquanto escrevo. Talvez por isso não hesite em dizer que se não escrevi, é porque não vivi.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Manhãs azedas


Não suporto este frio que faz das manhãs um calvário desnecessário. Ainda mal despertei e já me entra nos olhos com a ardência de uma cebola arisca, que insiste em mortificar a sensibilidade alheia. Do lado de dentro da janela, insisto em rejubilar com esse céu azul, banhado pelas águas macias do rio e recortado pelo verde negro da paisagem. Mas mal abro a porta da rua, entro numa guerra desigual e perco cada batalha diária para essa temperatura azeda, que insiste em cortar-me a pele ao primeiro contacto e penetrar-me nos ossos antes que eu consiga dar um passo. Respirar o ar matinal tem sido, para mim, uma tarefa complexa, rodeada de cuidados extremos e panaceias imensas. E como se não bastassem as alergias da estação, ainda tenho de aturar esse frio gélido, que insiste em fazer do Outono um Inverno cruel. Por estes dias, amaldiçoo estas estações trocadas e todos aqueles que só as sabem emaranhar.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Vidas amontoadas









Para quem ainda tenha ilusões sobre o valor da vida depois da morte, deixo aqui este instante, captado no cemitério dos Flamengos, na ilha do Faial. Estas vidas amontoadas são apenas o retrato de como os vivos já não olham pela memória dos seus mortos.

Crédito da foto: LBulcão