domingo, 14 de junho de 2009

O GACS e as más práticas jornalísticas nos Açores

O blogue Política Dura dedica um pertinente post à Liberdade de Imprensa e ao papel do GAGS no jornalismo açoriano, que não resisto a reforçar, com base na minha experiência jornalística (na região e fora dela). Se a criação do GACS teve um lado mau foi, de facto, o da acomodação dos jornalistas açorianos. Não tenho dúvidas que os orgãos de comunicação social são os primeiros responsáveis pelo mau uso dos comunicados do GACS. E digo-o com conhecimento pleno das condições de trabalho nos jornais da região.

O Governo faz a divulgação do que lhe convém, é certo. Mas não tenhamos ilusões: todos os jornalistas que recebem os comunicados do GACS sabem que estes vêm do Governo, logo devem fazer o trabalho de casa, seja confirmar a informação, ouvir contraditórios ou construir o seu próprio texto. No mínimo dos mínimos, exige-se que reescrevam as notícias e não as publiquem "ipsis verbis", como se de um take da LUSA se tratasse.

Esse mau uso do GACS foi, aliás, uma das coisas contra as quais mais lutei aquando da fundação do semanário Tribuna das Ilhas, do qual fui directora-adjunta entre 2002 e 2003. Hoje, é com tristeza que vejo que a minha luta não teve seguimento e que o mal se generalizou em todos os jornais da região.

Não me falem das parcas condições de trabalho, nem na pressão do fecho para desculpar esta má prática jornalística. Em todas as redacções nacionais também chovem comunicados do Governo e press releases das agências de comunicação. Mas se são publicados na íntegra é porque alguém não fez o seu trabalho, seja o jornalista que escreve a notícia ou o editor que o aceita.

Como editora, já me passaram pelas mãos textos de jornalistas que nem se tinham dado ao trabalho de reescrever os comunicados que eu lhes tinha passado como ponto de partida para a notícia. E isto aconteceu tanto com jornalistas açorianos, como com jornalistas de jornais nacionais. Escusado será dizer que as notícias não foram publicadas assim, por muito grande que fosse a pressão do fecho. Portanto, não me venham cá dizer que quando isso acontece nos Açores a culpa também é do Governo.

A única culpa que se pode atribuir ao Governo Regional dos Açores é a de ter criado uma máquina de propaganda extremamente eficaz. Mas os culpados do mau uso do GACS na imprensa açoriana são, e serão sempre, o jornalista que transcreve o texto e o chefe que lhe deu a ordem ou fechou a página. Tudo o resto são pormenores de circunstância.

11 comentários:

Anónimo disse...

Muito bem dito.

geocrusoe disse...

Sendo uma pessoa que gosta de participação na sociedade, incluindo política, muitas das vezes não partidária, reconheço que tem toda a razão. Essa subserviência dos jornalistas cá das ilhas ao gacs é nefasta e uma das causas porque reduzi a leitura de notícias políticas nos ocs açorianos, até porque na blogosfera das ilhas toda a informação importante aparece, bem como a respectiva crítica, os seus contraditórios e debates livres, o que me permite ajuizar melhor o que cá se passa do que ao ler as transcrições acríticas dos textos do gacs.

Tiago R. disse...

Como em todo o lado há bons e maus profissionais.

Reconheço que o Governo tem toda a legitimidade de criar um Gabinete de comunicação. Mas isso só aumenta a exigência para com os profissionais dos OCS de efectivamente confrontarem ideias e opiniões.

É verdade que as parcas condições de trabalho e a pressão do fecho da edição existem. E também existem jornalistas precários que têm de fazer o que lhes mandam porque não têm outras opções profissionais. Depois existem também direcções que não estão nada preocupadas com a qualidade do que publicam. São factores que se somam...

Acho que felizmente ainda vai havendo excepções a essa regra. Fora isso, assino por baixo tudo o que escreveu.

Anónimo disse...

Só para lembrar que o GaCS foi criado por Mota Amaral (chamava-se, então, GIA) e também para manifestar o meu espanto pela tirada do "geocrusue" acerca da blogosfera. Se há característica que ela não tenha é, exactamente, a de ser honesta, esclarecida e esclarecedora, isenta, desapaixonada (no pior sentido do termo) e apartidária.

geocrusoe disse...

ao anónimo
não é sempre apartidária, nem isenta, nem honesta, o que aliás deixei claro, mas é por ser diversificada com contraditórios que esgrimem argumentos e criticam, muitos deles de forma identificada, é que eu consigo descobrir a realidade subjacente. Mantenho o que disse para choque do anónimo.

Anónimo disse...

Curiosamente o anonimo que refere à criação do GIA, deve usar a bandeira rosada.Senão teria usado outra forma de contestação.
Para seu esclarecimento, infelizmente, as redacções são "obrigadas" a se esquecerem de publicar este ou aquele artigo que possa beliscar alguma entidade ou propriamente algum membro do governo, pela simples razão, de que se o não fizer é riscado o respectivo jornal de inserir qualquer anuncio ou publicação, perdendo, monetáriamente dinheiro, que são a forma de os manter activos.
Digo como os comicos terceirenses:"fala quem sabe".
Se tem duvidas, indague.
Bom fim de semana.

A ilha dentro de mim disse...

Geocrusoe,
Só resta saber se é subserviência ou preguiça de fazer diferente. Porque efectivemente dá trabalho estar sempre a contrariar o sistema...

Tiago R.,
Concordo plenamente com os seus reparos. Obviamente que falei de uma forma generalizada, porque foram os jornais que generalizaram o uso do GACS como verdadeira agência de notícias, credível e desinteressada. Bons e maus profissionais, mais ou menos inexperientes, há-os em todo o lado. Mas só o brio profissional pode dar valor acrescentado a uma má ordem, que pode ser transformada numa peça melhor. E isso devia acontecer mesmo numa simples breve.

Anónimo das 5:54,
Foi precisamente por saber do que falo que escrevi este texto. Sou jornalista profissional há mais de uma década e exerci na região o tempo suficiente para conhecer as pressões de q se fala. Além de ter sido directora-adjunta do "Tribuna das Ilhas", fui também redactora do extinto semanário faialense "Incentivo" durante dois anos e meio, ainda antes de entrar no curso de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa. Nessa altura, não existia o GACS e o antecessor GAI não se fazia sentir naquela redacção. Mas quando voltei a trabalhar na região, cinco anos depois da licenciatura e com alguma bagagem de jornalismo nacional (televisivo e escrito), as coisas estavam bastante diferentes. Hoje, infelizmente, creio que estão ainda piores. E nem preciso exercer na região para o perceber. Basta-me ver a quantidade de notícias publicadas nos jornais regionais com assinatura do GACS.

Anónimo disse...

Cara Lidia:
Estamos plenamente de acordo. E sabes que agora o que disse é verdade.
Sei, tambem, como era no teu tempo. Mas, agora...
Por isso, ousei a expressão de "fala quem sabe" porque já me tocou.
Boa tarde+

H. Blayer disse...

Esta é uma discussão e um tema que dá "pano para mangas".
É certo que há "culpa" de todos os lados. Do próprio GACS, que insiste em falar em "notícias" quando o que fazem são apenas "notas de imprensa" e "comunicados", nunca "notícias". É verdade que existe muito boa gente que teima em utilizar na íntegra, as ditas notas. E agora, com as páginas dos OCS's na net, há quem escreva notícias e coloque como "EXTRAS" links directos para as notas do GACS. Bom exemplo? Não acho. Acho péssimo que sejam precisamente os OCS's a classificar um comunicado de propaganda (porque não se trata de outra coisa - e eu não vejo mal nisso) como notícia. Isso sim, é péssimo. Até porque muita gente que lê, não faz a distinção entre uma coisa (notícia) e outra (notas do Gacs)

A ilha dentro de mim disse...

Caro H. Blayer,

Tem toda a razão. Acho que um dos grandes problemas é mesmo essa distinção. De facto, ninguém fala de comunicados do Governo e sim de notícias do GACS. Já ouvi muitos "estagiários" responderem que não reescreveram a notícia porque ela já estava bem escrita assim... Nestes casos podemos dizer que é fruto da inexperiência. O problema é quando a mesma resposta vem da boca de jornalistas séniores...

Anónimo disse...

Caríssimos,

É verdade sim. Muitos jornalistas copiam integralmente a "notícia" do Gacs. No meu caso e, não revelo identidade nem local de trabalho para me salvaguardar e não por cobardia, posso dizer que recorremos às "notícias" do Gacs por dois motivos: falta de meios e vontade de agradar ao Governo Regional.
A falta de meios deve-se ao facto de se ter reduzido significativamente a equipa ao longo do último ano. Assim, onde antes havia sete a escrever (o que já era pouco), agora há três. Refira-se que o trabalho é exactamente o mesmo, se não, mais. Por outro lado, a chefia considera que as "notícias" do Governo devem ter prioridade. Mesmo quando mudar de cor, continuarão a ter prioridade.
É este o retrato que pinto.
E sinceramente... Já nem tenho forças para contestar. Siga a marinha...