quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Pensar a vida a escrever

Reli há pouco, com prazer, a entrevista do escritor V. S. Naipaul (Prémio Nobel da Literatura em 2001) ao Suplemento P2 do Público, publicada a 26 de Novembro último, e quero aqui reter uma frase que me marcou acima de todas as outras: «Não é a viagem sozinha que nos muda, é o acto de a escrever, de pensar. Muitas vezes não sabemos o que pensamos sobre certa experiência até escrevermos sobre ela.»
Falando sobre a imperatividade do escritor viajar para conhecer o mundo, Naipul acaba por descrever a escrita como uma forma de clarificar a vida e os sentimentos que por vezes nem sabemos que temos. É como se só vivessemos plenamente aquilo sobre o qual escrevemos.
A ideia pode parecer disparatada para muitos, mas para mim faz todo o sentido. Mais do que pensar enquanto escrevo, eu penso a escrever. E sei que quando me sento a escrever sobre as experiências que vivi esse passado parece ganhar vida própria. No fundo, é como se eu própria só vivesse enquanto escrevo. Talvez por isso não hesite em dizer que se não escrevi, é porque não vivi.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Contagem decrescente


O Natal ainda vai longe, mas eu já entrei em contagem decrescente. Não para a festa, mas para o regresso ao porto de todos os abrigos. Daqui a uma semana estarei de volta à ilha, para as merecidas férias natalícias, junto às raízes e ao calor da família. Até lá, o tempo será medido pela importância dos dias em falta. Sei que as horas vão parecer minutos quando quiser agendar nelas todos os compromissos inadiáveis. Sei que os segundos vão parecer horas quando as memórias ficarem à deriva. Sei que vou arrumar as malas à última da hora e dormir mal na última noite. E tenho a certeza que quanto mais perto estiver daquele pedaço de encantamento maior será a vontade de sucumbir à vertigem da saudade.

Crédito da foto: Mário Leal

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Manhãs azedas


Não suporto este frio que faz das manhãs um calvário desnecessário. Ainda mal despertei e já me entra nos olhos com a ardência de uma cebola arisca, que insiste em mortificar a sensibilidade alheia. Do lado de dentro da janela, insisto em rejubilar com esse céu azul, banhado pelas águas macias do rio e recortado pelo verde negro da paisagem. Mas mal abro a porta da rua, entro numa guerra desigual e perco cada batalha diária para essa temperatura azeda, que insiste em cortar-me a pele ao primeiro contacto e penetrar-me nos ossos antes que eu consiga dar um passo. Respirar o ar matinal tem sido, para mim, uma tarefa complexa, rodeada de cuidados extremos e panaceias imensas. E como se não bastassem as alergias da estação, ainda tenho de aturar esse frio gélido, que insiste em fazer do Outono um Inverno cruel. Por estes dias, amaldiçoo estas estações trocadas e todos aqueles que só as sabem emaranhar.

Monges rendidos ao mercado puro

Enquanto os grandes países rodopiam ao sabor da crise económica e o PCP rejubila com as dificuldades do povo (porque prova o fracasso do capitalismo, nas palavras de Odete Santos), os Monges do templo de Shaolin rendem-se à economia de mercado. A notícia do Público online só prova que nem em tempos conturbados o budismo zen entra em stress.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A importância de ser premiada


Primeiro resisti. Gosto de nadar contra a corrente e não me deixar amarrar no primeiro cais. Depois, reflecti, analisei, pesquisei e acabei por me render à simpatia dos que acham que A Ilha Dentro de Mim é merecedora de maiores atenções.


Em pouco mais de um mês, este espaço recebeu dois prémios provenientes da blogosfera, um Brilhante Webblog 2008 vindo do conterrâneo Geocrusoe e um Prémio Dardos vindo pela inesperada mão do poeta de Águas do Sul.


Sei que a blogosfera exige retorno ao que dá, por isso venho agora cumprir a responsabilidade que me foi exigida, elegendo o blogue da Reimão como Brilhante Webblog 2008.

E porque este mundo virtual tem possibilidades infinitas de momentos brilhantes e de grande sensibilidade, vou escolher apenas um punhado de mundos criativos para o prémio Dardos, que visa "reconhecer o empenho de cada blogueiro ao transmitir valores culturais, éticos, literários e pessoais, e que demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas palavras”.


Assim, os meus Dardos vão para:

- as linhas perfeitas do Fogo de Letras;
- a poesia verde do Desambientado;
- a sensibilidade d'A Anatomia dos Sentidos;
- o valor patrimonial do recém-nascido Horta XXI.

Aos distinguidos cabe agora aceitar, ou não, a responsabilidade de levar estes prémios a outras paragens. A escolha é só deles.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A poesia da geodiversidade

Porque a geodiversidade açoriana é tão rica quanto a sua alma, recomendo um momento de perfeita açorianidade que encontrei nas linhas do poeta Desambientado.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Amanhecer



Luz que dói na escuridão,
correndo o pântano da dor
com sua leveza e brilhantina.

Fio de incandescência,
que deixa transparecer
os pontos negros da alma
e os vazios do pensamento.

Esperança fina, ténue
como a dor quando arranca,
antes de surgir em força
e profundidade.

Suave toque de brisa
voando sobre a tempestade,
com a ligeireza da bruma
que não tem medo das raízes
de força bruta,
nem dos trovões de som eterno.

Lídia Bulcão


Crédito foto: Azorina/ Gilda Pontes

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Círculos de eterno retorno


Ainda eu não tinha nascido e já Eugénio de Andrade conseguia escrever o que eu haveria de sentir, mais de três décadas depois: «Há dias, há noites em que as águas se movem lentas na minha memória. Movem-se? Daqui as vejo imóveis, com esse peso do verão sobre o corpo.» E como pesa esse peso de que o poeta fala, ainda que seja outro Verão, outro corpo, outras memórias. Por estes dias, as águas quase nem se moveram dentro de mim, correndo lentamente em círculos de eterno retorno. E, à semelhança do poeta, também eu pergunto: «Como esquecê-las?»

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Fortes com memórias

Vista da vigia do Forte da Espalamaca (Foto: Lídia Bulcão)


Porque o tempo, por vezes, parece não ter passado e os assuntos de ontem ganham hoje uma estranha actualidade, deixo aqui uma crónica que escrevi para o semanário Tribuna das Ilhas. Foi publicada já lá vão seis anos, mas pode ser lida como se tivesse saído hoje.

«Quanto mais tempo passo nesta terra, mais me convenço de que há lugares maravilhosos ao nosso lado, cuja existência mal conhecemos. Porque estão longe dos olhos, porque o caminho não é acessível, ou simplesmente porque o acesso é proibido ao comum mortal.

O Forte da Guia e o Forte da Espalamaca, que visitei pela primeira vez esta semana, são dois desses lugares que a vista não alcança e que encerram verdadeiros tesouros. Não daqueles que valem muito ouro, mas sim dos outros. Daqueles que nenhum dinheiro pode pagar.

Neste caso concreto, encerram os dois melhores miradouros que a cidade da Horta poderia alguma vez ter. Ou não fossem os melhores postos que o exército encontrou para proteger a baía que ancorava as frotas dos aliados durante a II Guerra Mundial.

Quem sobe ao miradouro do Monte da Guia, está longe de imaginar o outro lado. Depois de ver a Ermida, olhar as caldeirinhas e a vista sobre Porto Pim, imagina-se um pouco mais da cidade e nada mais. No entanto, do outro lado do monte, que é ainda mais alto, a panorâmica de sempre ganha outra vida.

À medida que o caminho se vai percorrendo, a Horta vai-se descobrindo e com ela a baía em todo o seu esplendor. Depois do olhar sobre a cidade, vem a visão das caldeirinhas com as águas quase turquesa por baixo, a Ermida da Guia no cimo e as pastagens verdes da ilha por detrás.

Na outra ponta da cidade, no Forte da Espalamaca, o tesouro é outro e com um valor muito mais histórico. Por baixo das pastagens que todos vemos, estão vários túneis, com centenas de metros e muitos labirintos, assustadores só para quem não conhecer os cantos à casa, como o sargento Fontes, que guiou a comitiva e apresentou os recantos. Na saída de um dos túneis, há uma vista maravilhosa sobre a Horta e sobre todo o canal. Pelo meio, muitas clarabóias, pequenas salas, antigas camaratas e até instalações sanitárias.

O Forte da Espalamaca é, no fundo, a memória de um tempo que há muito passou pela ilha, mas que ali ainda parece respirar. Talvez porque o ar não cheira mal e a humidade não penetrou nas paredes. Talvez porque a ferrugem não penetrou nos metais e as roldanas continuam a funcionar como se tivessem sido usadas no mês passado. Mas, sobretudo, porque a história que ali se fez ainda está por contar. E, se não nos apressarmos, ficará por contar para sempre. Porque a venda daquele espaço a um qualquer comprador pode significar a destruição da história que é de todos nós.»

Lídia Bulcao, in Tribuna das Ilhas de 11/10/2002

Em nome das nossas memórias

Vista do Forte do Monte da Guia (Foto: Lídia Bulcão)

Porque há assuntos que estão mais actuais do que nunca, porque há linhas que não devem cair no esquecimento, porque há reacções que se deviam repetir, deixo aqui esta crónica que escrevi para o extinto semanário Terceira Expresso, já lá vão seis anos.

«A venda em hasta pública de alguns imóveis do Estado, dos quais se destacam o Forte da Guia e o Forte da Espalamaca, situados na ilha do Faial, teve sobre a Região um efeito que poucos acontecimentos conseguem. É que com excepção das frequentes calamidades que nos atingem - ora a umas ilhas, ora a outras -, raras vezes se ouvem os vários partidos políticos e outras entidades açorianas erguerem-se a uma só voz para defender uma causa.
Neste caso, não sei se foi a falta de consideração da República, que nem se deu ao trabalho de nos avisar, ou se foi a falta de respeito pela preservação da nossa tradição e do nosso património que mais indignou os partidos, o Governo, a Assembleia e outras instituições. Mas isso também não é o que mais interessa. O que interessa verdadeiramente é que aconteceu. E esperemos que se venha a repetir muito mais vezes.
Sabemos que somos pequenos, somos poucos e ainda por cima estamos repartidos em nove bocadinhos de terra. Mas talvez seja preciso lembrar de vez em quando que não é por isso que temos menos força. O que nos enfraquece e nos diminiu são as divisões, as invejas e os bairrismos desnecessários.
Os Forte da Guia e da Espalamaca são, indiscutivelmente, dois marcos importantes na história do canal Faial-Pico. Ou não tivessem sido os melhores postos que o exército encontrou para proteger a baía que ancorava as frotas dos aliados durante a II Guerra Mundial. São, no fundo, a memória de um tempo que há muito passou por estas ilhas, mas que ali ainda parece respirar.»
Lídia Bulcão, in jornal Terceira Expresso, Outubro de 2002