domingo, 11 de janeiro de 2009

As ilhas desconhecidas de Vicente Jorge Silva


Em breve, muito em breve, As Ilhas Desconhecidas vão renascer na RTP pela mão de Vicente Jorge Silva, que transformou em série de televisão a célebre viagem de Raúl Brandão aos Açores e à Madeira. Com ante-estreia agendada para o próximo dia 21, em Ponta Delgada, o ambicioso projecto de quatro episódios promete dar que falar.
Mas enquanto não estreia, aproveito para evocar aqui uma crónica do realizador madeirense, escrita com a sua talentosa pena de jornalista e o seu indisfarçável coração de ilhéu. Encontrei-a, por acaso, na revista UP (da Tap) de Agosto e não podia vir mais a propósito. Não só levanta um pouco do véu deste projecto - mantido sob enorme low-profile -, como ainda deixa no ar aquele rasto das coisas que não podemos perder.



«ILHAS DESCONHECIDAS

Faz agora precisamente um ano que iniciei uma experiência inesquecível. Durante cerca de três meses, percorri as onze ilhas habitadas dos Açores e da madeira, tendo por guia um dos clássicos mais famosos - senão o mais famoso - da literatura portuguesa de viagens: As Ilhas Desconhecidas, que Raul Brandão escreveu em 1924.
Não viajei sozinho e sem objectivo definido, entregue simplesmente à aventura, o que também poderia ter acontecido. Havia um projecto para concretizar: uma série de televisão de quatro episódios na qual eu e a minha equipa procurámos surpreender sinais do que ficou e do que desapareceu desde a viagem de Brandão.
Há 84 anos, as ilhas - sobretudo as mais pequenas e excêntricas - permaneciam fortemente marcadas pelo isolamento ancestral e por situações de imenso dramatismo humano. Todo esse panorama foi-se transformando profundamente, à medida que se generealizaram as ligações áreas e se reduziram as carências extremas em que viviam as gentes insulares.
Inevitavelmente, aquilo que era singular e específico do universo das ilhas tendeu a ser uniformizado por padrões de vida cada vez mais indiferenciados, globais. Desse ponto de vista, As Ilhas Desconhecidas descritas por Raúl Brandão mudaram essencialmente no plano social e tornaram-se quase irreconhecíveis.
Entretanto, por mais paradoxal que pareça, isso não eliminou o mistério e a magia que as torna inconfundíveis num mundo asfixiado pela uniformização. Pelo contrário, pode dizer-se que o espírito original das Ilhas Desconhecidas se afirma hoje num contraste talvez mais radical com esse mundo envolvente - fora e também dentro das próprias ilhas.
Até na Madeira, onde nasci e vivi, ou no Porto Santo, onde passei alguns verões maravilhosos numa infância já longínqua, é possível escapar ao cerco do turismo de massificado, se estivermos disponíveis para um encontro com os espaços selvagens e o tempo suspenso de uma beleza primitiva e intacta, que nos convidam a mergulhar no fundo de nós mesmos.
O apelo do desconhecido que conquistou Brandão ainda bate no coração das ilhas, incluindo aquelas que o betão turístico ameaça desfigurar. Em pouco quilómetros, passamos da trepidação do litoral da Madeira ao sortilégio das montanhas onde se respira ainda a atmosfera do velho romantismo europeu transposto para o exotismo dos trópicos e a solidão atlântica.
Na vertigem silenciosa das serras madeirenses, atravessando a floresta exuberante da laurissilva, perseguindo o som da água que corre ao longo das levadas, somos transportados para uma dimensão onde o sagrado se insinua, um desconhecido feito de paz e harmonia interiores. É tudo uma questão de desejo, de querer verdadeiramente descobrir esse desconhecido. Na ilha, nas ilhas, dentro de nós - ilhas que também somos no imenso arquipélago do mundo.»
Por Vicente Jorge Silva, in revista UP, Agosto de 2008

2 comentários:

Jose Augusto Soares disse...

Na verdade, é bom termos sempre presente o risco de um "turismo massificado".
E VJS bem o sente na pele.
Basta visitar a cidade do Funchal.

chansonnette disse...

Foi este post que aqui me trouxe. Porque o programa foi-me um desapontamento. Esperava mais. Queria mais.