sábado, 23 de outubro de 2010

Uma noite que valeu a pena!


O Experimentar Na M'Incomoda (LBulcão)

 «Quando o faialense Pedro Lucas foi chamado ao palco do Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), no último domingo, para receber uma Menção Honrosa pelo projecto “O Experimentar Na M’Incomoda”, o seu rosto espelhava o que a maioria dos ilhéus presentes na entrega dos Prémios Megafone/João Aguardela haveria de sentir quando o espectáculo terminou: a sensação de que a noite soube a pouco.

Por mais que saibamos que o pouco por vezes é muito (e neste caso foi mesmo IMENSO), ainda assim não é fácil esconder o bocadinho de desilusão que nos fica na alma, tão intensamente exposta depois de ver e ouvir as nossas raízes açorianas celebradas numa das mais importantes salas de espectáculos do País.

O Pequeno Auditório do CCB, em Lisboa, estava pejado de “habitués” da música profundamente portuguesa, desde Mafalda Veiga a Luís Varatojo, passando por muitos outros nomes menos mediáticos e igualmente importantes. Mas o ar que se foi aspirando ao longo do espectáculo era bem mais do que apenas português: era também ilhéu, intensamente ilhéu.

Embora o primeiro nomeado da noite fosse um quarteto transmontano de som mirandês, os Galandum Galundaina, os outros dois nomeados para a primeira edição deste prémio eram projectos açorianos, nascidos e criados a partir do Faial.

Bandarra (LBulcão)
Dos três, os Bandarra, escolhidos pela sua “invulgar capacidade de misturar instrumentos tradicionais” e “sons de festa” com “letras profundas”, eram talvez os mais conhecidos entre nós e até os que arrecadaram mais palmas do público presente no CCB.

Contudo, foi O Experimentar Na M’Incomoda, de Pedro Lucas, que mais surpreendeu, conseguindo arrecadar uma Menção Honrosa ao mostrar-se herdeiro do verdadeiro espírito Megafone, o projecto mais alternativo do músico João Aguardela, que a maioria conheceu como líder dos Sitiados ou pela participação no projecto A NAIFA.

Nomeado pela sua “surpreendente criatividade” na reinvenção da tradição oral, o faialense Pedro Lucas conseguiu impressionar o júri ao vestir com sons electrónicos e contemporâneos músicas açorianas como “As Ilhas de Bruma” ou “Rema” e vozes como as de Zeca Medeiros ou Carlos Medeiros.

Já o Prémio principal foi para os Galandum Galundaina, com quem João Aguardela tinha uma especial afinidade – havia-lhes prometido participar no seu último disco, uma promessa que a morte não o deixou cumprir e que a atribuição deste Prémio vem de certa forma corrigir. 
Os nomeados para o Prémio Megafone Música (LBulcão)
Para muitos açorianos, provavelmente nem interessava quem ganhava o Prémio - desde que fosse um dos projectos ilhéus, e de preferência os dois. O nosso bairrismo é assim, e nisso não somos diferentes do resto do País. O que é nosso toca-nos sempre mais, mesmo que não seja verdadeiramente melhor.

Não vou aqui fazer nenhum parêntesis para debater a questão que muitos gostariam de ver respondida. A tal dúvida eterna do “será que não eram?”. Não precisamos entrar por aí, até porque esse era o papel do júri. Na verdade, nem interessa se eram ou não eram, ou se podiam ter sido.

Depois da noite de domingo, o que interessa é que dois projectos com raízes faialenses foram escolhidos de entre dezenas de outros candidatos de todo o País e ficaram entre os três melhores, com direito a edição e divulgação do seu próximo álbum em todas as plataformas FNAC. O que interessa é que tanto o Pedro Lucas como os Bandarra conseguiram pegar naquilo que é nosso e criar algo de novo. O que interessa é que não precisaram ignorar as tradições antigas, nem as raízes açorianas, para conseguir brilhar num mundo difícil e cada vez mais exigente como é o da música portuguesa. O que interessa é, sobretudo, ver que o mar que nos rodeia não é uma fronteira intransponível e que o talento ilhéu não pode, nem deve, ficar preso na ilha. E, só por isso, a noite de domingo valeu mesmo a pena.»

Lídia Bulcão, in Tribuna das Ilhas, 23/10/2010

2 comentários:

geocrusoe disse...

É excelente saber que esta terra é capaz de criar e bem, de parabéns estão os artistas e votos que trilhem um longo e bom caminho no mundo da música.
Estes prémio também mostra que o mal do Faial não está na capacidade das pessoas, mas sim em quem gere a ilha.

A ilha dentro de mim disse...

Pois é, o talento só por si não faz milagres. É preciso sempre vontade de o pôr a render...