quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Uma história de cidadania, ou a vitória da luz sobre as trevas


A inauguração da exposição de aguarelas do pintor António Cavaco Silva, segunda-feira no Hospital da Luz, em Lisboa, foi, para mim, um exemplo do que é e devia ser a nossa cidadania. Um pintor gravemente doente, que já não consegue pintar, reuniu as suas últimas telas numa exposição de despedida, expondo as suas fragilidades e debilidades aos olhares de todos sob o título "Caminhos de Luz".

Ao olhar para cada uma das suas aguarelas não pude deixar de ver o retrato de uma luta desigual entre a vida e a morte, mas vi também as pequenas vitórias da luz sobre as trevas. Saí de lá com o coração balançado. Pelo seu talento esquartejado, pela dor que os sorrisos não mostravam, pelas memórias ainda frescas que aqueles caminhos me despertaram.

Estremeci por dentro ao ver o António enfrentar de sorriso aberto os flashes e as televisões, deixando depois que as figuras públicas da família empurrassem a sua cadeira de rodas livremente. O seu olhar transmitia a esperança que não estamos habituados a ver em doentes assim e o seu sorriso emanava a convicção de quem sente que pode fazer alguma coisa pelos outros que, como ele, sofrem ou poderão vir a sofrer de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica).

Naquela inauguração estiveram presentes também nomes sonantes da política, da direita à esquerda, que marcaram presença por um mesmo objectivo: ajudar a divulgar uma doença rara e ainda desconhecida para a maioria como é a ELA, que apesar de incapacitante e fatal só este ano foi reconhecida como uma doença séria em Portugal.

Para algumas pessoas, a exposição de António Cavaco Silva poderá ser vista como um evento de circunstância, quiçá fruto dos laços familiares. Mas quem conhece bem de perto as amarguras da Esclerosa Lateral Amiotrófica sabe que aquele momento foi um grande passo rumo a um futuro com mais esperança para outros doentes e seus familiares.

Para mim, aquela inauguração foi também uma viagem pelas agonias da ELA, que levou a minha mãe em 2007, depois de uma batalha extenuante de 3 anos. Compreendo por isso muito bem o quanto terá custado a António Cavaco Silva mostrar ao mundo a doença, a família e os seus "Caminhos de Luz". Acho admirável que tenha tido a coragem de se expôr assim e, por isso mesmo, deixo aqui o meu contributo sincero para a sua causa, que aprendi da forma mais dura a fazer minha também.
Crédito da foto: Presidência da República

2 comentários:

geocrusoe disse...

Compreendo que se é difícil esconder a dor, mas difícil é transformá-la em lição de vidda e o caso que relatas é um exemplo disto, independentemente de quem forem os seus familiares.

Helena Teixeira disse...

É verdade,independentemente dos seus familiares,António é um grande homem,artista e guerreiro da vida.Já devia ter sido falado e reconhecido há mais tempo.Mas enfim,foi-o agora e muito bem.Vi as suas telas no jornal e na TV,simplesmente lindas lindas.
Força,António!Conserve sempre o seu Sorriso que isso nada nem ninguém lho tira :)

Cumprimentos
Lena

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