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quinta-feira, 10 de junho de 2010

É tempo de parar de virar a cara!

António Barreto pôs o dedo na ferida, ainda não cicatrizada, que Portugal teima em esconder. E tem toda a razão. É tempo do País parar de virar a cara aos farrapos do Ultramar e de fazer de conta que não aconteceu. Em homenagem a todos os ex-combatentes que continuam a lutar para ser reconhecidos e, em particular, ao meu pai, também eu assumo aqui as minhas feridas. Na esperança de que quem me leia consiga um dia assumir as suas.

FILHA DE UM ATIRADOR

Sou filha de um atirador.
Filha de um homem que matou
mais do que consigo imaginar.

Sou filha de um atirador.
Enlouquecido pela dor que explodiu nele,
depois de ter explodido sobre os outros.

Sou filha de um atirador.
Filha de um homem amargurado,
estragado pela guerra, desvirtuado pela paz,
quebrado pela vida que não conseguiu ter.

Sou filha de um atirador.
Escrevo-o sem saber o que digo,
sem poder contar as vidas que tirou,
nem as circunstâncias em que o fez.

Sou filha de um atirador.
Por mais que o escreva, não o sinto.
Não o vi apontar, não o vi atirar,
não vi nenhum corpo cair,
nem sequer o sangue amanhecer.

Sou filha de um atirador.
E tal como o resto do País,
fecho os olhos, viro a cara,
e faço de conta que não aconteceu.

Lídia Bulcão

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Um dia que será sempre um pouco nosso

Longe ou perto, há datas que não se podem ignorar, por isso não podia deixar de cumprir a tradição carnavalesca açoriana e neste dia enviar um abraço forte às amigas do meu coração. Por mais milhas que o mar ou o rio ponham entre nós, por mais quilómetros de terra que nos afastem, sei que a nossa amizade caberá sempre neste Círculo Redondo, que dedico às meninas especiais neste Dia de Amigas. Ainda que tenhamos cabelos brancos e pernas quase caquéticas, este dia será sempre um pouco nosso.
FELIZ DIA DE AMIGAS!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Um sonho faialense no Montijo



O novo centro Centro Médido e de Fisioterapia do Montijo tem uma costela faialense. Passando a referência óbvia à minha mana mais nova, que com apenas 24 anos se tornou empresária, não posso deixar de ver neste moderno espaço de saúde e bem-estar uma prova de que os bons açorianos vão deixando obra feita onde quer que andem. Quem quiser saber mais, clique no site oficial do espaço.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Dois anos de saudade


Completam-se hoje e vão repetir-se ad eternum.
Será sempre o dia em que o meu coração quis gritar
e não conseguiu. Ainda hoje vive sufocado.
Crédito da foto: Edeni Mendes da Rocha

domingo, 8 de março de 2009

Farrapos do Ultramar

Ver a Guiné nos telejornais, reavivou-me as palavras do meu pai. "Como não quero deixar este mundo com isto escondido, sinto a satisfação do dever cumprido, aliviando um fardo que carrego há uns 35 anos", escreveu ele no livro Guiné - A cobardia ali não tinha lugar. Não estranho por isso que o documentário “Guerra”, de Joaquim Furtado, tenha dado a muitos ex-combatentes vontade de começar a falar sobre a vida que sofreram e fizeram sofrer no Ultramar.

Ainda há muito por dizer sobre o que tememos que tenha ficado calado. E não tenhamos ilusões: nesta guerra, os nossos homens não foram diferentes de outros. Humilharam e foram humilhados, mataram e morreram, foram vítimas e carrascos, humanos e desumanos. Foram simplesmente homens. Que depois se tornaram farrapos, pedaços de vidas incompletas e nunca plenamente vividas.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

62 anos de uma vida construída a dois


Ontem, os meus avós maternos comemoraram 62 anos de casados. Isso mesmo, 62 anos de uma vida construída a dois, com todos os altos e baixos que se esperam numa qualquer vida, recheada de momentos felizes e intercalados com outros mais difíceis.
Pelo meio desses 62 anos de casamento, criaram duas filhas, viram nascer quatro netas e conheceram o tardio prazer de um bisneto, sem nunca deixarem de ser um pilar na comunidade que os rodeia. E quando a vida parecia já nada lhes poder ensinar, sentiram a amarga dor de perder uma filha.
Aos 80 anos de idade, os meus avós aprenderam ainda que a vida nos reserva sempre mais do que esperamos dela. E hoje, apesar da dor que não acaba e do sofrimento que não esquece, os meus avós ainda são capazes de sorrir.
Quando vejo o brilho que ilumina os olhos do meu avô cada vez que olha para o bisneto, percebo que a felicidade pode ser uma coisa muito simples. E ao ouvir a transformação na voz da minha avó quando fala com o meu filho ao telefone compreendo que, afinal, a lonjura só nos aparta do que não amamos.

Para eles, o meu amor e a minha homenagem.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Rotinas e novos mundos


Setembro tem sido mês de regressar, recuperar, redecorar, reorganizar, enfim, de recomeçar. Retomam-se algumas rotinas, mas também se dão novos passos, em direcção a outros futuros, que esperamos sempre melhores.

Para o meu filho, esses passos estão a ser bem maiores. Levam-no à primeira escolinha, ao pátio das brincadeiras e à cadeirinha dos saberes. É bom, é necessário, mas também é duro.

Deixá-lo lá pela manhã custa tanto como se o estivesse a enviar para o outro lado do mundo. E daí que não está longe da verdade. É ali que ele vai de facto partir para o mundo, para o seu mundo. A partir de agora, nada será como dantes.