sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Ladaínhas de dor

Rituais se lavraram
e cânticos se entoaram,
ladaínhas de dor
rezadas com afinco.
Tarefa ingrata esta,
limpar o ardor da morte
quando a vida ainda
se sente tão quente.

Lídia Bulcão

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O cheiro da civilização

Ao passar pela feira mensal de Coina no último fim-de-semana, com a sua habitual confusão de trânsito, gentes e chão de poeiras infindáveis, dei por mim a voar para Portobello Market, em Londres. Ex-libris de Notting Hill, Portobello Market é uma mescla de mercado, feira e multiculturalidade.

Há legumes frescos, roupa de qualidade, antiguidades, artigos de decoração, raridades e velharias. Há vendedores de sempre e trocas de mercadorias, tesouros que se exibem mas ninguém compra, velharias que são disputadas e sobretudo muita mistura de gentes e culturas.

São salsichas alemãs com pastelaria inglesa, são frutas frescas e peixe no gelo, são panelas e tachos, baús e cabides, quadros, espelhos, molduras, moedas, selos e vinis. São roupas modernas para o Verão e barracas com artigos em segunda mão. Botas velhas recuperadas, sapatos engraxados e malas encardidas. Há de tudo para vender, logo há de tudo para comprar. E há, sobretudo, gente que tudo procura e ali encontra.

Há cheiros no ar. Há confusão nas ruas, atafulhadas mas transitáveis. As barracas nas laterais dos passeios permitem ao trânsito circular. Mal, mas, ainda assim, circular.

Há conversas e negociações, há confusão, há misturas e há até avisos claros de que os carteiristas andam por lá. Mas não há gritos, não há discussões, não há empurrões.

Há gente, muita gente. Locais, turistas, e de outros regiões da cidade ou do País. Há indianos, asiáticos, africanos, árabes, europeus e até americanos. Mas não há guerra, nem tão pouco se nota o preconceito.

No mercado de Portobello Road há uma mescla de gente e culturas. Mas há sobretudo o cheiro da civilização.

Crédito foto: @LBulcao

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A ilha de Pedro da Silveira

Porque me falta o mar da ilha e os murmúrios das ganhoas
deixo aqui as palavras do mestre Pedro da Silveira,
poeta florentino que tão bem soube descortinar a alma açoriana.




«ILHA

Só isto:
O céu fechado, uma ganhoa
pairando. Mar. E um barco na distância:
olhos de fome a adivinhar-lhe à proa
Califórnias perdidas de abundância.»

Pedro da Silveira, A Ilha e o mundo (1952)/
in fui ao mar buscar laranjas - Livro 1


@GCabaça/ ImagDOP

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O poeta por detrás da figura pública


Muito já se disse e escreveu sobre Francisco José Viegas. Que é escritor, jornalista, cronista, bloguista, homem de cultura e dos prazeres, amante dos livros e dos Açores. Poucos lhe chamam poeta e, sinceramente, não consigo perceber porquê, se é na poesia que mostra a sua veia maior. Resta-me apenas pensar que seja por desconhecimento, por ignorarem ainda as linhas em que o poeta derrama a sua alma. Deixo, por isso, aqui um exemplo, para que conheçam um pouco o outro lado da figura que a televisão tornou pública.






«SE ME COMOVESSE O AMOR

Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.»

in "Se me Comovesse o Amor", Quasi Edições


segunda-feira, 13 de outubro de 2008

62 anos de uma vida construída a dois


Ontem, os meus avós maternos comemoraram 62 anos de casados. Isso mesmo, 62 anos de uma vida construída a dois, com todos os altos e baixos que se esperam numa qualquer vida, recheada de momentos felizes e intercalados com outros mais difíceis.
Pelo meio desses 62 anos de casamento, criaram duas filhas, viram nascer quatro netas e conheceram o tardio prazer de um bisneto, sem nunca deixarem de ser um pilar na comunidade que os rodeia. E quando a vida parecia já nada lhes poder ensinar, sentiram a amarga dor de perder uma filha.
Aos 80 anos de idade, os meus avós aprenderam ainda que a vida nos reserva sempre mais do que esperamos dela. E hoje, apesar da dor que não acaba e do sofrimento que não esquece, os meus avós ainda são capazes de sorrir.
Quando vejo o brilho que ilumina os olhos do meu avô cada vez que olha para o bisneto, percebo que a felicidade pode ser uma coisa muito simples. E ao ouvir a transformação na voz da minha avó quando fala com o meu filho ao telefone compreendo que, afinal, a lonjura só nos aparta do que não amamos.

Para eles, o meu amor e a minha homenagem.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Quando a realidade rouba a poesia

Há momentos em que a realidade nos rouba a poesia,
esquartejando as linhas que outrora sonhámos
e devorando os sons que nos guiavam nos dias difíceis.

Leiam aqui o certeiro texto de Pedro Santos Guerreiro,
director do Jornal de Negócios, e percebam porquê.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Inspirador

A ilha não é, nem pode ser, uma prisão para o talento.
Que a história de Rodolfo Vieira seja tão inspiradora
quanto a sua música. Aqui.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Viagem pelo futuro

Vagueio por entre os livros que nunca irei ler, pelos países que não conhecerei, pelos sonhos que não chegarei a realizar. Vagueio tanto que me perco no horizonte daquilo que gostaria de ser. Penso no futuro que chega depressa e na velocidade que não consigo abrandar, como se o tempo tivesse o acelerador encravado e os amortecedores partidos. Sei que o mapa está na minha mão e que as estradas ainda têm escapatórias. Só não sei se serei capaz de trocar o intinerário principal por um atalho desconhecido, ainda que o destino final possa ser aquele que sempre procurei.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

The sea of suspicion



Sometimes, I feel myself a believer. Others, a truly sceptic.
Most of the time, I'm between extremes, in the sea of suspicion.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Para quem procura o compasso certo


Conheço vidas que parecem partituras perfeitas, onde as colcheias e semi-colcheias se baralham tão naturalmente que mais parecem ter sido escritas a partir de um outro mundo. Mas há outras vidas, tão baralhadas e confusas, que parecem não caber numa partitura, onde cada ritmo tem sempre de encontrar o compasso certo. É a essas que dedico este Dia Mundial da Música, na esperança de que um dia consigam fechar os olhos e embriagar-se com os sons da sua própria harmonia.