terça-feira, 23 de setembro de 2008

Triângulo imperfeito
















Turquesa morna, azul profundo, laranja escaldante
Triângulo de uma vida feita de pinceladas
Oceano de cores tranquilas e traços marcantes
Floresta de vazios perdidos e socalcos penetrantes

Lídia Bulcão

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Pensamento de Mestre


Vitorino Nemésio não tem quem o iguale na intuição da açorianidade. Nem Raul Brandão tem quem ombreie com a originalidade das suas pinceladas. Talvez por isso seja impossível deixar de pensar neles quando atravesso o Tejo.

Não obstante desaparecidos, parece que os vejo a olhar o rio e os ouço descrever a sensação de cortar as águas. Reparam na luz, que faz o amanhecer brilhar. Reparam na cor, que se transcende e confunde o olhar. Reparam na transparência das águas, ou na imensa falta dela. E reparam sobretudo no cheiro. O cheiro que de um lado é leve e do outro marcante, que de um lado encanta a alma e do outro quase a enterra. O cheiro que, longe de ser suave e delicado, é profundo e quase revoltante.

Parece que consigo vê-los em cima do cais, parados de frente para as águas, fechando os olhos e sorvendo o ar. Consigo perceber que o respiram suavemente, como se de um delicado néctar se tratasse; que o retêm nos pulmões uns segundos, como para apurar a sua estrutura e profundidade; e que depois o expiram, com a velocidade que a idade ainda lhes permite e a repulsa que o corpo não disfarça.

E nem preciso aproximar-se mais para captar a força dos seus pensamentos mais imediatos: “Só um idiota toma este rio por mar!”

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Rotinas e novos mundos


Setembro tem sido mês de regressar, recuperar, redecorar, reorganizar, enfim, de recomeçar. Retomam-se algumas rotinas, mas também se dão novos passos, em direcção a outros futuros, que esperamos sempre melhores.

Para o meu filho, esses passos estão a ser bem maiores. Levam-no à primeira escolinha, ao pátio das brincadeiras e à cadeirinha dos saberes. É bom, é necessário, mas também é duro.

Deixá-lo lá pela manhã custa tanto como se o estivesse a enviar para o outro lado do mundo. E daí que não está longe da verdade. É ali que ele vai de facto partir para o mundo, para o seu mundo. A partir de agora, nada será como dantes.

Verão na ilha





Foi bom poder mergulhar sem sentir os ossos a quebrar. Foi bom poder brincar sem deveres para cumprir. Foi bom poder inspirar sem ter o ar atravessado. Foi bom poder relaxar sem o peso da vida. Foi bom, muito bom. Mas mais uma vez soube a pouco. As férias acabaram e o Verão está a ir embora. Vale-nos a ilha, essa, que vem cada vez mais dentro de nós.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O poder dessa avenida

«Percorro a avenida de lés a lés, com a velocidade que o pensamento permite e a saudade que o coração aguenta. Já lá vai quase um ano que não lhe sinto a calçada, nem lhe gabo a vista. Mas nem por isso deixei de lhe cheirar o ar de maresia, de lhe ouvir o estalar das ondas no paredão, ou de me arrepiar com os salpicos daquele mar.

Mesmo de olhos fechados, consigo sentir o rossio no ar e o salitre na pele. Mesmo de olhos fechados, consigo saborear o salgado dos lábios, que incessantemente pedem água para matar a sede. Só que esta sede não se mata apenas com água, porque a doçura do líquido não extingue a sagacidade da alma, que não dorme sequer a pensar no que o corpo lhe pede.

Mas será que pode o corpo pedir o que a distância não deixa ver? Pode a alma sofrer com a ausência do que não tem? Não só pode, como exige, como anseia desesperadamente. Como se disso dependesse a sua existência. Como se todo o mundo não bastasse para a saciar. Como se a força do mar sugasse a seiva do corpo e dele fizesse uma pedra de sal, pronta a desfazer-se ao mais pequeno estremecer.

Agora, de olhos abertos, percorro o Tejo, o Sado, o Douro, o Sena e o Tamisa. De olhos abertos, vejo o mar de Sesimbra, de Setúbal, do Algarve, do Mediterrâneo e até do Adriático. Mas, por mais que abra os meus olhos e desperte os mais profundos sentidos, não consigo captar o que os meus olhos vêem quando estão fechados, pairando sobre a marginal dessa inquieta avenida, que insiste em mergulhar no mar todos os meus pensamentos e vontades de ser.»

Lídia Bulcão, in jornal Avenida Marginal, 4/7/2008

segunda-feira, 7 de julho de 2008

"Fôlegos urbanos quase reais"



Título: Praça de Londres
Autora: Lídia Jorge
Editora: Dom Quixote
Preço: €10



«O último livro de Lídia Jorge é a prova de que os contos ainda vivem na literatura portuguesa. Em cinco breves histórias, a autora mostra que nem só de grandes romances vive a sua escrita, que aqui se molda com detalhes e emoções profundas. Destaque para os contos Praça de Londres - que dá nome à colectânea - e Perfume. O primeiro é de uma ternura sôfrega, tal como são sôfregos os beijos com que o homem grisalho devora a criança pequena, e o segundo é uma perfeita história de amor, contada pela memória de uma infância feita de ausências e desencontros. São histórias quase reais, urbanas e intemporais.»
Lídia Bulcão, in jornal Meia Hora, 07/07/2008

terça-feira, 10 de junho de 2008

Mundo esquizofrénico


@Mário Leal


Linhas cruzadas, traços emaranhados,
pontos escuros e gritos histéricos.
Vidas confusas estas que se perdem,
enlouquecidas na voracidade dos dias.
Lídia Bulcão

terça-feira, 3 de junho de 2008

A ilha que é só minha


@Mário Leal

Hoje, a ilha dentro de mim é um pedaço de pedra negra, pesada e disforme como o basalto, instável e quebradiça como a argila. Hoje, a ilha dentro de mim é um mar de uma imensidão assustadora, sem pontos de amarração ou faróis de apoio. Hoje, a ilha dentro de mim tem um buraco sem fim, onde a escuridão é tremenda e o horizonte não se alcança. Hoje, a ilha dentro de mim é apenas uma pedra, sem vida própria, nem dor alheia. Hoje, a ilha dentro de mim é apenas uma ilha, rodeada de mar por todos os lados e ancorada em poesia. Hoje, a ilha dentro de mim é minha. Só minha.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Alentejo com cheiro de mar

@ Atmosphere Hotels


«No Alentejo tudo é diferente. Até o cheiro do mar. Sim, porque o Alentejo é muito mais do que extensões de terra a perder de vista e olivais sem fim. Longe do interior e das extensas planícies, há um outro lado. Bem mais verde, mais montanhoso e, sobretudo, mais desconhecido. É o lado do mar, onde a costa encontra a terra árida e nela se espraia com contornos muito especiais. Nesse lado, o mundo parece que ainda só está a começar. E que nós podemos fazer toda a diferença.»

Lídia Bulcão, in jornal Meia Hora

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Saudade indomável




Passaram 11 anos desde que ouvi o Torcato Sepúlveda gritar pela primeira vez, nos tempos da refundação do Semanário. Foi uma daquelas explosões vindas do fundo da sua rouquidão e fez parar toda a redacção.
O grito não era mais do que intempestiva indignação, perante uma pergunta de somenos importância. Mas fez-me tremer a mim, então estagiária, dos pés à cabeça. E percebi que para ele até as coisas de somenos importância tinham a força das coisas sérias.

Anos mais tarde, reencontrei-o na redacção d'A Capital e ouvi-o gargalhar com a leveza dos grandes corações. Por entre os prazeres da Grande Lisboa, parecia ter descoberto que a rir também se podia tratar das coisas sérias.

Esta noite, perante a notícia da sua morte, presto-lhe a minha homenagem. Mas não sou capaz de lhe dizer adeus. Porque não há adeus para as pessoas eternas. E o Torcato Sepúlveda era um desses raros seres com a capacidade de tocar na nosssa vida só com uma palavra, fosse ela escrita, falada ou até mesmo gritada.

A fúria da sua Natureza era também a força do seu coração. E não há adeus para pessoas assim. Não há adeus. Mas há saudade. Eterna. Tal como ele será sempre.