sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A clarividência de um arqueológo de palavras

Porque é preciso meter mãos à obra e construir tudo aquilo que ainda está por fazer nestas ilhas, deixo aqui as palavras deste arqueólogo da poesia que é Heitor H. Silva. A clarividência do poeta faialense iá indicava o caminho a seguir, sem que fossem preciso gastar milhares de euros em estudos que dizem ou consultadorias que desdizem.


«Construamos barcos para as madrugadas
insulares. Tábua a tábua, porões,
convés, mastreações, velames,
vento nas enxárceas...
Construamo-los nós mesmos: velas brancas,
lemes, mastros, cascos que se afundem
nos horizontes repetidos.
Vertiginosamente aquáticas estas mãos
que adormeceram tempo de mais
no emaranhado dos sargaços
saberão, certamente, como redimir-se.

Desçamos às profundidades oceânicas
galvanizados por essa voz extrema,
que nos toca tão de perto,
e sintamos em cada tábua que um carpinteiro
alcança a outro carpinteiro
antevisões de serras, puas, prumos,
viagens puras,
cartografia perfeita
inscrita no dorso azul e fusiforme
dos cardumes.
Inéditas seriam estas paisagens submersas
                 se o coração as não soubesse.

Construamos barcos, ilhas/barcos
derivando.»

Heitor H. Silva, in "Arqueologia da Palavra" (Horta, 1991)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A economia local agradece, e os amantes de cracas também!

Foto: José Borges
A produção de cracas em regime de aquacultura está a um passo de entrar no mercado açoriano. Depois dos estudos e do ensaio-piloto, o projecto do Departamento de Oceanografia e Pescas  (DOP) chegou à fase de produção comercial, prevendo-se que em 2011 já exista uma ou até duas estruturas de dimensão comercial em pleno funcionamento. Este projecto, coordenado pelo cientista Eduardo Isidro, parece ter boas pernas para andar e assim contribuir para o desenvolvimento da economia da região, em particular das ilhas Faial e Pico. É, sem dúvida, um bom exemplo da ponte que se pode e deve fazer entre a excelência da academia e a vida real, pondo o investimento feito na ciência ao serviço da população.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

R.I.P Mário Machado Frayão

Morreu ontem o poeta faialense Mário Machado Frayão. Apartado da ilha há largos anos, foi incapaz de a esquecer, vertendo para a escrita as memórias que lhe apertavam o coração. Hoje, estão espalhadas em várias antologias de poesia açoriana e livros como "Enquanto o Mar se Renova", "Poemas do Mar Atlântico" , "Os Barcos Levam Nomes de Mulheres" e "Cartas de Marear". Foi-se o homem, ficam as suas palavras.


ELA TINHA OS OLHOS VERDES

«Ela tinha os olhos verdes
da cor das águas do Porto Pim
O anel
podia ser de Margarida
Clark Dulmo
Ainda vai chegar muita gente à Semana do mar
Sossegam as traineiras sobre um mar de luzes
e por cima das traineiras
sobre a nossa noite grasnavam garajaus
Descem
por uma escada em caracol
outras mulheres
que o sol e o mar nos entregam
cada dia mais formosas
Depois da Festa
(o melhor, além das moças,
bem moças e bem gentis,
mulheres de fala cantante,
foi quando as velas se ergueram nas canoas baleeiras
lembrando as asas de um pássaro)
depois da Festa
vou caminhar sobre a lava arrefecida
na costa da ilha negra
ilha da grande montanha.»


Mário Machado Frayão 
(1952-2010)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Isto é absolutamente escandaloso!

Se nos dias de hoje a governação do País já está dependente dos mercados internacionais, imaginem o que vai acontecer a partir de agora, que os partidos políticos vão passar a poder investir na bolsa. E eu que pensava que o inside trading era crime... Esta notícia é absolutamente escandalosa. E muito preocupante.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A Cadeia de Santa Engrácia

Perante esta notícia, começo a pensar que só quando houver uma revolta das grandes na sobrelotada Cadeia de Ponta Delgada é que as obras vão arrancar de vez. Está visto que gastar dinheiro com prisioneiros não dá votos!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Estaremos condenados ao domínio das águas vivas?

Águas vivas nos mares do Pico (Foto: Paulo Pinheiro)
O aquecimento das águas dos mares e o desaparecimento de algumas espécies de peixe, vítimas da pesca intensiva, são a explicação para o aumento da frequência de águas vivas nos mares da região Nordeste Atlântico, segundo um estudo de investigadores ingleses e irlandeses divulgado hoje pelo DN. O  estudo é pertinente e deixa pistas importantes também para o futuro dos mares açorianos. Será esta também a explicação para o aparecimento de cada vez mais águas vivas nos nossos mares, que tantos transtornos causaram aos vereaneantes de todas as ilhas ainda este Verão? Estaremos condenados a ver as nossas águas ser dominadas por estas espécies gelatinosas? Ou haverá forma de repor o equilíbrio dos ecossistemas marinhos?

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Parabéns ao Mente Livre!

Parabéns ao conterrâneo Mente Livre pelo seu primeiro aniversário (celebrado ontem). Numa era em que muitos se calam para não serem prejudicados e outros se tapam com o anonimato para vocifrar contra quem discordam, é bom entrar num espaço onde as ideias têm voz própria. Mais uma prova de que ter uma ideologia política não é, nem tem de ser, sinónimo de colocar um espartilho no pensamento. Levantar questões e reflectir sobre elas é a melhor forma de percorrer o caminho para o futuro e de manter a sanidade nesta sociedade cada vez mais espartilhada. Que venham mais assim!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Última curta de Manoel de Oliveira no Faial Filmes Fest


Apesar das dificuldades financeiras com que se vem debatendo o Cineclube da Horta, a organização do Faial Film Fest não baixou o padrão de qualidade a que já nos tem vindo a habituar. Manoel de Oliveira vai ser o homenageado da edição deste ano, que arranca dia 31 de Outubro e terá na apresentação do seu último trabalho um dos grandes momentos do certame. Além da curta-metragem de Oliveira, intitulada Painéis de S. Vicente de Fora - Visão Poética, a selecção oficial do Festival conta com 58 filmes, escolhidos de entre um número recorde de participações, que este ano foram alargadas aos países lusófonos. Para ver no Teatro Faialense, até 7 de Novembro.

Uma recomendação para o próximo fim-de-semana

Depois da anunciada ruptura nas negociações entre o Governo e o PSD para o Orçamento de Estado, não há nada que enganar: no próximo fim-de-semana guardem bem as vossas abóboras e vamos mas é todos pedir pão-por-Deus!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Não há botox que disfarce este Cantagalo!

Hotel do Cantagalo (Foto: LBulcão)

«Depois de me ter espraiado pelos mares do canal Faial-Pico, onde fui nascida e criada, encerrei as minhas férias na Terceira, uma ilha que aos poucos se tem vindo a tornar também minha, por força de laços familiares que aqui me vão trazendo cada vez mais frequentemente. Só neste último ano passei por cá várias vezes e não posso negar que em todas elas me senti em casa, mesmo quando a bruma insistia em esconder o horizonte, negando-me o prazer de saborear a proximidade dos meus vizinhos de infância, São Jorge e Pico.

Seja como for, de viagem para viagem, fui-me deixando apaixonar por esta terra de bravos costumes e farras imensas, onde a folia parece ter a energia do magma e a paz a delicadeza de um néctar inebriante. De mansinho, muito de mansinho, também esta ilha tem vindo a entranhar-se dentro de mim, mostrando-me o que os olhos não alcançam e oferecendo muito mais do que eu esperava. No mapa desta estranha geografia, reencontrei rostos da minha infância e recuperei amizades que julgara soterradas nas ruínas do tempo. E, como se isso não fosse suficiente, ainda me deixei encantar pelos prazeres terceirenses, que me vão arrebatando de forma diferente a cada viagem.

Podia continuar, parágrafo atrás de parágrafo, a descrever os dias que tenho vivido por aqui, perdida por entre a intensidade da maresia e achada perante o peso secular da história que se respira nas fachadas coloridas. Deambular pelas ruas de Angra já se tornou um dos meus passeios preferidos nas noites mais serenas, mas a verdade é que não há bela sem senão. E o que podia ser uma rota perfeita pelo património cuidadosamente recuperado e preservado, ameaça tornar-se uma viagem a duas velocidades, que mistura um passado glorioso com um futuro monstruoso.

Talvez a palavra escolhida seja pesada, mas não consigo encontrar melhor forma de descrever o atentado urbanístico que vai crescendo na sala de visitas desta cidade-património, como se fosse uma planta invasora que ameaça tirar a vida às preciosidades endémicas. Refiro-me, obviamente, à mega-construção que está a desfigurar a face marítima de Angra do Heroísmo - o Hotel do Cantagalo.

Há muito que se adivinhava monstruosa esta frente de betão que se vai erguendo na cidade, pronta para reescrever a História de forma leviana. Mas confesso que a paragem prolongada das obras nos últimos meses me tinha feito acalentar a secreta esperança de que o bom senso dos nossos decisores vencesse a batalha.

Queria acreditar que a coragem e o orgulho do poder terceirense falariam mais alto do que quaisquer outros interesses menos óbvios. No fundo, guardava a secreta esperança de que os responsáveis políticos tivessem bom senso e acabassem por travar o crescimento de tamanho "mamarracho" (que me perdoe o responsável pelo projecto, mas é efectivamente de um "mamarracho" que falamos).

Antes de mais, quero esclarecer que não tenho, nem nunca tive, qualquer preconceito contra a arquitectura moderna, muito pelo contrário. Nos jornais e revistas nacionais por onde tenho passado já escrevi e editei muitos textos rasgados de elogios a magníficas obras de arquitectura contemporânea. E, da mesma forma que sou capaz de avaliar devidamente as linhas de um edifício moderno ou futurista, também sei apreciar o nosso património e o seu enquadramento paisagístico, sobretudo quando falamos de uma cidade que é Património Mundial da UNESCO, um galardão que muito honra os Açores e o resto do País.

Contudo, ao ver que as obras recomeçaram no Hotel do Cantagalo, o que restava das minhas ilusões caiu por terra. Percebi que não há limites para a inconsciência humana. E que aquilo que os nossos antepassados demoraram séculos a construir não tem valor para quem hoje vai gerindo a cidade, de costas voltadas para o futuro, sem réstia de pudor ou qualquer consciência de estar a destruir um legado de valor incalculável.

Se a construção da marina de Angra conseguiu trazer muita graça às faces rosadas da cidade-património, já este hotel, pelo contrário, só serve para lhe evidenciar os seus pecados mortais, cavando-lhe rugas eternas. E não há botox que disfarce este Cantagalo!»

Lídia Bulcão, in Diário Insular, 23/10/2010