terça-feira, 5 de outubro de 2010

Uma República eternamente adiada?

Cem anos de República. Cem anos de tragédias, mortes, ditaduras, revoluções, crises e desvarios, mas também cem anos de mudanças profundas, evoluções naturais e progresso q.b. De certa forma, podemos falar da redescoberta de um lugar português no mundo. Mas quando todos esperavam que estes cem anos de República Portuguesa fossem celebrados com verdadeira grandeza e circunstância, Sócrates revelou um País novamente à beira de afundar, deixando o fantasma da incerteza a pairar sobre todas as aparentes conquistas. Na hora do balanço centenário, fica a inevitável pergunta: estará Portugal condenado a ser uma República eternamente adiada?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Crónica de um voo livre


Foto: Claúdia Garcia


Ouvi a chuva a quebrar-se
e arrepiei-me com a sua leveza.
Olhei a espuma do mar
e senti a doçura da maresia revolta.
Aspirei o vento que corta
e deixei a pele revigorar-se.
Por fim, debrucei-me sobre o céu
e no breve azul voei livre,
como as ganhoas que rumam a sul
em busca de um tempo mais perfeito.

Lídia Bulcão

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O País já não está de tanga. Está nu!

Imgem retirada do blogue Activismo de Sofá

De nada serviu tapar os olhos com a peneira, porque a realidade acaba sempre por mostrar aquilo que muitos insistem em não querer ver. O País já não está de tanga. Está nu. Completamente nu. Despido de tangas e outros fios dentais, criados por um Governo que só pensou no estilo e na sedução dos portugueses. Agora, sem ter qualquer trapo para se cobrir, o País vai ter de correr mundos e fundos para se manter aquecido durante o Inverno que aí vem. Um Inverno longo e penoso, como poucos acreditaram ser possível. E não se iludam os açorianos, porque a região também vai pagar a sua parte da factura para não enregelar os ossos. Quando a coisa aperta, é como escreve director do Jornal de Negócios, Pedro Santos Guerreiro: «Nestas alturas, somos sempre todos iguais. Eles contam connosco. E nós não contamos com mais ninguém

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Assim, não há maravilha de Portugal que faça milagres!



Como é que é possível que nos dias de hoje ainda haja quem despeje mais de 300 quilos de pasta de queijo numa ribeira? Um volume desta Natureza não é apenas inconsciência ambiental, é criminoso mesmo... Assim, não há maravilha de Portugal que faça milagres!


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A força de um Vulcão à porta de casa


Lídia Bulcão, in jornal Meia-Hora, de 27/09/2007

A propósito da passagem dos 53 anos sobre a primeira erupção do Vulcão dos Capelinhos, deixo aqui o recorte de uma crónica publicada há três anos no extinto jornal Meia-Hora. À excepção do número de anos, as minhas palavras continuam hoje tão actuais como então. (Para ver o texto maior, basta clicar na imagem.)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Lugares assim

Foto: LBulcão

Há lugares nessa imensa geografia que nos fazem sentir como pequenos grãos de areia, perdidos na engrenagem da vida. Há lugares nas profundezas da terra que nos mostram a força que nem sonhamos ter e a energia que nos faz renascer. Há lugares dentro desse mar profundo cuja doçura nem imaginamos existir. Há lugares nascidos da pedra que são mais quentes que a corrente de lava. Há lugares feitos de carne e osso que são mais secretos que os desejos reprimidos. Há lugares que nunca pensámos desbravar, até descobrirmos que não conseguimos viver sem os percorrer. Há lugares assim no imaginário dos dias, que de repente nos fazem retornar das cinzas.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A fusão dos sentidos com os prazeres das ilhas

Angra do Heroísmo (Foto: LBulcão)

Para encerrar as férias em grande, nada como a fusão dos sentidos com os prazeres que só as ilhas têm para oferecer. A delicadeza de umas cracas fresquinhas a desfazerem-se na boca e a intensidade de umas lapas grelhadas a prender-nos o paladar. O cheiro da maresia que nos entra pelo nariz dentro e o calor da areia que nos emprenha os sentidos. O vento a despentear-nos pelas encostas mais altas e o silêncio da terra que vem das profundezas. A cor das fachadas e das varandas floridas, que vão serpenteando a cidade e as suas calçadas. A magnitude da noite e das conversas perdidas por entre ruelas singelas e esplanadas sentidas. O sorriso das gentes que fazem da estrada o seu trilho pedestre, carregando na alma votos eternos e desejos secretos. A energia da música que nos preenche a alma e o valor das amizades que não se perderam nas ruínas do tempo. Foi assim o meu último fim-de-semana de férias nos Açores. Quase perfeito!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bossa Nossa!!!


Foto: LBulcão

Depois de muitas tentativas frustradas, consegui finalmente passar pela ilha Terceira em dia de concerto do Bossa Quartet (agora Bossa Quinteto), um grupo terceirense que está a virar uma instituição, com fãs em crescendo e fama merecida. A imagem não está perfeita, mas dá para terem uma ideia do excelente ambiente que se viveu sábado à noite na esplanada do Café Central, em Angra do Heroísmo. As cadeiras não chegaram para todos os que aparecerem e a escadaria da igreja virou um animado anfiteatro. Com Claudiana Cau na voz, Duarte Dores na Guitarra e voz, Paulo Cunha no baixo, Rui Melo no saxofone e Dudu Costa na percursão, este Quinteto é uma aventura açoriana pelos ritmos brasileiros da Bossa Nova, MPB e Samba. Cinco nomes que são, sem dúvida, sinónimo de uma noite muito bem passada. Por mim, repetia já amanhã...

Quando todos os caminhos da Terceira vão dar à Serreta


Fotos: LBulcão


Não conhecia a tradição terceirense de fazer romaria a pé até ao santuário da Serreta por ocasião da festa de Nossa Senhora dos Milagres, mas confesso que fiquei impressionada com o que vi no último fim-de-semana. Só no sábado à tarde, e no espaço de três horas, contei mais de 700 caminhantes entre Angra do Heroísmo e a Serreta, um percurso que ronda os 20 km e que a maioria faz em cerca de 7 horas de caminhada. Ao todo, terão sido certamente mais alguns milhares, a ver pela afluência das ruas, que começou na quinta-feira e se prolongou pelo domingo dentro. Vinham de todos os cantos da ilha e não se pode dizer que fossem romeiros típicos. Uns iam de chinelos, outros de ténis, alguns mesmo descalços, mas havia-os de todos os géneros: velhos e novos, crianças e jovens, pagadores de promessas e escuteiros, casais e grupos, desportistas e solitários. A maioria trazia mochilas às costas ou garrafas de águas nas mãos, mas também se viam velas de vários tamanhos e feitios e outros que não traziam nada mas paravam em todas as tascas ou roulottes que apareciam pelo caminho. O passo dependia do ritmo e do cansaço, mas todos mostravam uma vontade inabalável de chegar à Serreta. E fossem quais fossem os seus motivos, a verdade é que provaram que só lá vai quem quer. E quem quer pode.