quarta-feira, 23 de junho de 2010

Saltando à fogueira na imaginação da noite

Hoje vou saltar à fogueira na imaginação da noite. Vou ganhar balanço para enfrentar as labaredas inocentes e ultrapassar as brasas que não se vêem. Vou respirar fundo e acreditar que sou capaz de ir mais longe do que o vento. Vou deixar-me levar pelo cheiro da linguiça assada e pelo sabor da angelica matreira. Vou querer ser empurrada no meio de gritos infantis e brincadeiras que já não existem. Vou ouvir esse bandolim de cordas rebentadas e sentir os pés bailar como se o tempo renascesse. Hoje, vou correr para as chamas da memória e abraçar todos aqueles que um dia deram as mãos naquela rua cheia de histórias. Para que a escuridão não consuma esse lugar sagrado, onde antes ardia o fogo dos laços forjados a sangue.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Baía do Porto Pim, depois dos Encontros Culturais


O programa deste ano dos Encontros de Porto Pim, que terminaram na semana passada, ficou muito aquém da pujança cultural dos tempos de Eduardo Carqueijeiro (ex-Director Regional do Ambiente) e Vasco Pereira da Costa (ex-Director Regional da Cultura), seus criadores e principais impulsionadores. Não sei se foi por culpa da crise, se por ausência da Direcção Regional de Cultura (que deixou de ser um dos organizadores), ou até por qualquer outra razão que desconheço. De qualquer forma, e sem qualquer pretensão de rescaldo, deixo aqui o link para um olhar mais demorado sobre a grande reportagem da RTP-Açores que foi visionada e debatida durante os Encontros. Para ver e absorver.

A coerência dos deputados que temos, ou a falta dela

Não resisto a partilhar aqui a pertinente visão do blogue Café Puro sobre a coerência dos deputados que temos na ALRAA. Nesta caso, é a saga da Alzira empregada vs Alzira Patroa, a propósito da polémica aprovação do PROTA no último plenário do Parlamento regional dos Açores. Mais palavras para quê?

sábado, 19 de junho de 2010

Três anos a navegar nesta ilha

Passaram três anos desde que publiquei o primeiro post neste blogue, um espaço que não nasceu por acaso, como lembrei aqui por ocasião do segundo aniversário. Ao longo destes três anos, inteiros e redondos, "A ilha dentro de mim" tem sido sempre "o lugar onde consigo ver para além do horizonte", seja qual for a latitude desse horizonte. Da poesia à literatura, do jornalismo à política, da actualidade à intemporalidade, vou navegando entre os estados de alma que consomem a minha açorianidade e a necessidade de ir além do rio que vejo da minha janela. Em dia de aniversário, espero apenas continuar a verter aqui os pedaços de mim que precisam navegar por esse mundo fora. Que a viagem continue, de preferência na companhia de todos aqueles que de vez em quando ousam cruzar esta rota. Um brinde ao futuro!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Fugiu para uma ilha sem regresso


A morte de José Saramago deixou-me triste. E a tristeza, que chegou repentina, foi-se instalando, com vontade de ficar. Por mais notícias que veja ou comentários que ouça, nada apaga a sensação de ter perdido uma parte de mim.
Sei que os verdadeiros escritores não morrem nunca, porque a sua obra é eterna. Da mesma forma que sei que os homens não são imortais. Mas confesso que nunca sequer equacionei que Saramago um dia se ausentasse de nós, que pudesse fugir para uma ilha sem regresso.
Sempre pensei que o homem por detrás da escrita fosse ficar por aqui, sempre pronto a provocar-nos, a desafiar as nossas dúvidas, a confundir as nossas certezas, a alargar os nossos horizontes. Porque poucos souberam, como ele, ter esse efeito nas gentes de um povo crente e de brandos costumes.
Tantos o amaram quantos o odiaram. Por ser comunista, por ser ateu, por ser provocador, ou simplesmente por não ter medo de dizer o que pensa em voz alta. A mim, arrebatou-me desde que devorei cada pedacinho do seu "Memorial do Convento", estirada no final de uma adolescência nas areias de Porto Pim, as mesmas onde Tabucchi um dia encontrou a sua inquietude.
Nunca partilhei a visão ideológica de Saramago, nem as suas convicções políticas ou religiosas. Mas foi com o seu desassossego permanente que de certa forma aprendi a não ter medo de questionar as evidências e a encontrar as minhas convicções mais profundas - na política, na religião ou na vida. Vai fazer-me falta a sua clarividência humana. A mim e a todos os que acreditam que só os inquietos vão para além de si.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Governo regional entrou em época de saldos

As declarações do PS-Açores vieram confirmar as minhas suspeitas: Carlos César só queria mesmo era abafar a reivindicação de Berta Cabral, que no último Congresso Nacional do PSD reclamara sobre o preço das passagens para os Açores. A líder do PSD-Açores foi ovacionada em directo por um pavilhão inteiro e o Presidente do Governo Regional dos Açores não quis ficar atrás.

Uma semana depois, foi ao Congresso dos socialistas açorianos anunciar, com toda a pompa e circunstância, que os açorianos iam passar a ter passagens a 100 euros. As gentes rejubilaram perante tão inesperada benesse, mas estranharam e ficaram desconfiadas... Já, então, a promessa de Carlos César soava ao que agora o seu próprio filho vem provar ser verdade: era apenas uma mão cheia de "soudbytes" para a TV e outra vazia de coisa alguma.

Passagens áreas a 100 euros para os Açores? Só as promocionais! Está visto que este Governo Regional já entrou em época de saldos: vale tudo para vender o seu peixe podre!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O regresso das Levadas faialenses e o novo trilho dos 10 Vulcões

Trilho danificado das Levadas, em Agosto de 2008 (Foto: LBulcão)

Doze anos depois do sismo de 1998 ter danificado o percurso das Levadas faialenses, eis que elas estão de volta, recuperadas e melhoradas (espera-se) pela Secretaria do Ambiente e do Mar, que ali investiu 40 mil euros e criou nove estações interpretativas, para ajudar o caminhante a melhor compreender toda a envolvente.

Capelinhos vistos do trilho do Cabeço Verde (Foto: LBulcão)

Este regresso das Levadas está incluído na inauguração do Trilho dos 10 Vulcões, que a partir de 24 de Junho passará a ser o maior percurso pedestre dos Açores. São 27 km de extensão e nove horas de caminhada no Parque Natural do Faial, que incluem os trilhos da Caldeira, das Levadas, de Capelo-Capelinhos e do Vulcão dos Capelinhos. Um exercício poderoso, perfeito para quem, como eu, acredita que a paisagem pode lavar a alma.

Porque os iatistas não são manipuláveis

(Crédito da foto: Roland Marques)

«O Governo Regional errou quando pensou que os iatistas seriam manipuláveis,
e que acabariam por aportar onde houvesse lugares vazios, com taxas mais baixas,
com combustível mais baratos..., e até com reedições do Peter Café Sport.
O Governo errou, porque quem atravessa o Atlântico, não depende de subsídios ou de empregos...
Quem atravessa o Atlântico Norte é livre como as gaivotas, e o vento trá-los inevitavelmente
à marina da Horta, direitinhos ao original, ao autêntico e genuíno Peter.»

Paulo Oliveira, in Tribuna das Ilhas, de 11/06/2010

quinta-feira, 10 de junho de 2010

É tempo de parar de virar a cara!

António Barreto pôs o dedo na ferida, ainda não cicatrizada, que Portugal teima em esconder. E tem toda a razão. É tempo do País parar de virar a cara aos farrapos do Ultramar e de fazer de conta que não aconteceu. Em homenagem a todos os ex-combatentes que continuam a lutar para ser reconhecidos e, em particular, ao meu pai, também eu assumo aqui as minhas feridas. Na esperança de que quem me leia consiga um dia assumir as suas.

FILHA DE UM ATIRADOR

Sou filha de um atirador.
Filha de um homem que matou
mais do que consigo imaginar.

Sou filha de um atirador.
Enlouquecido pela dor que explodiu nele,
depois de ter explodido sobre os outros.

Sou filha de um atirador.
Filha de um homem amargurado,
estragado pela guerra, desvirtuado pela paz,
quebrado pela vida que não conseguiu ter.

Sou filha de um atirador.
Escrevo-o sem saber o que digo,
sem poder contar as vidas que tirou,
nem as circunstâncias em que o fez.

Sou filha de um atirador.
Por mais que o escreva, não o sinto.
Não o vi apontar, não o vi atirar,
não vi nenhum corpo cair,
nem sequer o sangue amanhecer.

Sou filha de um atirador.
E tal como o resto do País,
fecho os olhos, viro a cara,
e faço de conta que não aconteceu.

Lídia Bulcão

quarta-feira, 9 de junho de 2010

"Depois" de António Manuel Couto Viana

Em memória de António Manuel Couto Viana, liberto aqui a sua poesia.

Depois

Quando morrer não envelheço mais.
Vou ficar tal qual sou
Na partida do cais,
Na asa aberta ao derradeiro voo.

Vou, já podre o fruto
Do pomar que eu era.
Não quero luto:
Volto na Primavera.

Irei, então, recomeçar
Uma existência secreta,
Com os olhos no mar
E a saudade no poeta.

E na tragédia do solitário
Que de si próprio se escondia
Tirar-lhe o esqueleto do armário
E libertar-lhe a poesia.

António Manuel Couto Viana, in "Restos de Quase Nada e Outras Poesias"