terça-feira, 18 de maio de 2010

Respirando puro oxigénio


«Por agora, estou aqui. Respiro oxigénio. Chego a sentir aqueles fiozinhos de ar
que passam pelos poros (ouvi isto num lado qualquer ou li numa revista qualquer).
E não importa a forma como acabe. Todas as maneiras são boas.
»

José Luís Peixoto, "Legalize Airlines", in Hoje Não


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Os dois ilhéus, vistos por Osório Goulart


Os Ilhéus da Madalena,
abraçados pelo mar,
em suave noite amena,
ouvem sereias cantar.

E o sonho dos dois Ilhéus,
à luz doce do luar,
debaixo do azul dos céus,
para sempre há-de durar...

Um para os céus ergue a fronte,
quer a Terra ao Céu ligar,
outro quer, como uma ponte,
duas ilhas enlaçar.

Osório Goulart (1868 - 1960)


sexta-feira, 7 de maio de 2010

Variantes simples para a equação CALF


A Cooperativa de Lacticínios do Faial só sobrevive com apoios públicos. A notícia da RTP-Açores não surpreende quem há muito vem acompanhando a situação complicada que se vive na CALF. Nem tão pouco a quem, como eu, encontra o queijo Ilha Azul à venda no Intermarché mais próximo a menos um euro do que se compra em qualquer outro ponto de venda nos Açores. E é um valor bem abaixo do preço de outros queijos tipo prato de muito menor qualidade e nenhum sabor diferenciado. Mas, curiosamente, até hoje nunca ninguém se lembrou de fazer uma simples campanha publicitária para divulgar o nome do produto no continente, onde tem o seu principal mercado. Qualquer empresário sabe que uma boa campanha faz aumentar a procura e consegue acrescentar valor diferenciado a um produto que, só por si, já é considerado um dos melhores queijos do género. Tal como sabe que só com maior procura se pode subir o preço para o valor que merece. Será que nem as mais simples regras da economia e do marketing podem ser aplicadas para ajudar a resolver esta complicada equação? A mim quer-me parecer que o Estado tem sido a única variante tida em conta até aqui. E está visto que por si não vai resolver nada. Será que não há ninguém capaz de resolver equações destas na Lactaçor? Ou será que não lhes interessa?

domingo, 2 de maio de 2010

O velho que amava uma sereia

«Ficavas sentado nas pedras da praia como quem espera um sinal divino para despertar para a vida. Permanecias imóvel, olhando as ondas, como se esperasses um navio de carga preciosa ou uma alma generosa que te arrancasse daquela dormência quase etérea.

Olhando de repente, parecias uma casca de molusco deixada para trás, pousada ao acaso nas areias da vida, aguardando que a maré te levasse de vez. Olhando uma segunda ou terceira vez, com persistência e atenção, notava-se que os teus lábios mexiam. E quando a brisa colaborava, ouviam-se sons e murmúrios arrastados pelo vento, ainda que me fugissem mais do que chegavam, sem que percebesse sequer o que diziam.

Conheci-te assim toda a vida e sempre pensei que falavas com a tua própria existência, como se procurasses no passado as parcelas que faltavam para conseguires acertar as contas do presente. Como se conversando contigo próprio procurasses ouvir o que te vai na alma, de modo a torná-la mais leve e suportável.

Ontem, juraram-se que não. Juraram-me que não falavas sozinho, nem carregavas pesos mortos nessa alma de outros tempos. Que se os teus lábios se mexiam em frente ao mar é porque cantavam. E que esses murmúrios não são mais do que melodias de outros tempos e sons que já não se fazem.

Mas porque cantaria um velho perdido em frente ao mar? Porque ficaria horas a olhar o que ninguém parece ver, alheado do mundo inteiro e das vidas que o rodeiam? Respondem-me que és um homem agradecido à vida que existe debaixo de água e que já nada consegues fazer sem repetir os sons que lá ouviste cantar.

Pormenores, ninguém os sabe, ninguém se atreve a revelar. Mas circulam de boca em boca relatos de uma tragédia que não chegou a ser, do dia em que caíste ao mar e sobreviveste para dizer. Quem te ouviu primeiro já cá não está, mas quem ficou sempre vai contando que foi obra de uma sereia desconhecida. E que desde que te salvou passas os dias assim, embevecido a cantar a sua essência perdida.

De repente percebi que a vista não me enganara. Enquanto trilhavas a voz e acertavas o compasso com o mar, esperavas de facto que o tempo te devolvesse uma existência roubada. E que a tua alma generosa é uma sereia perdida, por quem te apaixonaste sem saber, numa clarividência da vida.»

Lídia Bulcão, in jornal Avenida Marginal n.6, 30/04/2010

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Um político conformado já se devia ter arrumado!

Foto: Estação Radionaval da Horta, em Agosto de 2009

O encerramento da Estação Radionaval da Horta foi esta semana finalmente assumido por quem de direito, para grande indignação de todos os que lutaram activamente contra ele, bolo em que me incluo, já que durante a última campanha para as Legislativas alertei publicamente para o risco que a economia faialense corria se este encerramento se confirmasse sem alternativas que compensassem a retirada da ilha.

Os representantes socialistas na República fizeram de conta que o assunto não era com eles e a verdade é que durante todos estes anos as autoridades locais nada fizeram para impedir ou atenuar a decisão da Marinha, tomada com o beneplácito e incentivo do Governo Regional dos Açores. Agora, a decisão assumida representa mais um tiro de canhão na economia faialense, que vive um dos momentos mais conturbados dos últimos tempos e tende a enterrar-se de uma forma vertiginosa.

Depois da COFACO e da CALF, muita coisa havia ainda para dizer. Mas há palavras absurdas, que não se podem permitir a um presidente de Câmara com responsabilidades: um político que se assume conformado é um político que já se devia ter arrumado. E há que dizê-lo sem medo. Porque o medo de defender o que é nosso está a corroer as entranhas da ilha e o coração do desenvolvimento local. Amanhã já é tarde demais.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Partes de nós II


Há uma parte de nós
que se encolhe e se amarra,
como uma fria humidade
por dentro da bruma molhada.

Há uma parte de nós
que anda em círculos complexos,
a descobrir o mundo dos outros
e sem encontrar os convexos.

Há uma parte de nós
que segue sem olhar para trás,
mas passa o resto da vida
sem o que importa mais.

Lídia Bulcão

Crédito da foto: Mário Leal

Partes de nós I

Há uma parte de nós
que fica presa na ilha,
qual pedaço de papel trancado
numa caixa escondida.

Há uma parte de nós
que se arrasta pela areia,
como se fosse um barco a remos
rumo ao som de uma baleia.

Há uma parte de nós
que empurra o calhau,
como se afastasse o pontão seguro
para se fazer livremente à nau.

Há uma parte de nós
que se ergue sem pensar,
caminhando firme na lonjura,
mas sempre em direcção ao mar.

Lídia Bulcão

Crédito da Foto: Mário Leal