Olhando de repente, parecias uma casca de molusco deixada para trás, pousada ao acaso nas areias da vida, aguardando que a maré te levasse de vez. Olhando uma segunda ou terceira vez, com persistência e atenção, notava-se que os teus lábios mexiam. E quando a brisa colaborava, ouviam-se sons e murmúrios arrastados pelo vento, ainda que me fugissem mais do que chegavam, sem que percebesse sequer o que diziam.
Conheci-te assim toda a vida e sempre pensei que falavas com a tua própria existência, como se procurasses no passado as parcelas que faltavam para conseguires acertar as contas do presente. Como se conversando contigo próprio procurasses ouvir o que te vai na alma, de modo a torná-la mais leve e suportável.
Ontem, juraram-se que não. Juraram-me que não falavas sozinho, nem carregavas pesos mortos nessa alma de outros tempos. Que se os teus lábios se mexiam em frente ao mar é porque cantavam. E que esses murmúrios não são mais do que melodias de outros tempos e sons que já não se fazem.
Mas porque cantaria um velho perdido em frente ao mar? Porque ficaria horas a olhar o que ninguém parece ver, alheado do mundo inteiro e das vidas que o rodeiam? Respondem-me que és um homem agradecido à vida que existe debaixo de água e que já nada consegues fazer sem repetir os sons que lá ouviste cantar.
Pormenores, ninguém os sabe, ninguém se atreve a revelar. Mas circulam de boca em boca relatos de uma tragédia que não chegou a ser, do dia em que caíste ao mar e sobreviveste para dizer. Quem te ouviu primeiro já cá não está, mas quem ficou sempre vai contando que foi obra de uma sereia desconhecida. E que desde que te salvou passas os dias assim, embevecido a cantar a sua essência perdida.
De repente percebi que a vista não me enganara. Enquanto trilhavas a voz e acertavas o compasso com o mar, esperavas de facto que o tempo te devolvesse uma existência roubada. E que a tua alma generosa é uma sereia perdida, por quem te apaixonaste sem saber, numa clarividência da vida.»
Lídia Bulcão, in jornal Avenida Marginal n.6, 30/04/2010





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