sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Um lugarzinho para a Cadeia da Horta, se faz favor!


O bastonário da Ordem dos Advogados descobriu hoje, em Ponta Delgada, o que o Governo Regional dos Açores tenta há muito esconder. «Tenho indicações de que o sistema prisional nos Açores está em ruptura por falta de instalações», afirmou Marinho Pinto aos jornalistas açorianos, em declarações já publicadas pelo Açoriano Oriental online. O bastonário defendeu "soluções novas" que respondam às especificidades do arquipélago e garantiu que vai interceder junto do Governo da República para que liberte as verbas necessárias para a construção da nova cadeia de Ponta Delgada. Esperemos é que ele tenha mais sorte do que os deputados socialistas eleitos pelo círculo dos Açores, de quem Sócrates se diz muito amigo... E já, agora, de caminho, peço também um favorzinho ao bastonário: dentro dessas especificidades açorianas de que fala, não se esqueça de reivindicar um lugarzinho para a cadeia faialense. É que dentro do actual estabelecimento prisional da Horta (na foto) as coisas ainda são piores do que no de São Miguel, sobretudo no que toca à exiguidade e condições do espaço...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Que Neptuno olhe pelas mulheres da Cofaco, porque o Governo Regional deve andar a dormir


O que há muito se dizia à boca pequena que havia de acontecer, passou hoje a ser realidade. Depois de anos de negociações, apoios governamentais e outros que tais, a Cofaco assumiu finalmente que vai fazer o que sempre quis: deslocalizar os postos de trabalho do Faial para o Pico. As dezenas de mulheres que há décadas laboram na fábrica do Pasteleiro passarão agora a ter de atravessar diariamente o canal para não perderem o seu sustento. A travessia seria fácil se fosse sempre mar de Verão, mas todos sabemos que as agruras do mar de Inverno - as mesmas que nas últimas semanas têm feito a vida negra à construção da nova bacia do Porto da Horta - também não vão poupar estas mulheres. Resta-me desejar que Neptuno vá com elas, porque o Governo Regional dos Açores, esse, deve andar a dormir...

Foto recebida pela Internet/Autor desconhecido

Música e Arte no Atlântico já é uma realidade



A Associação Horta-Camerata - Música e Arte no Atlântico já é uma realidade. A sua Assembleia Constitutiva teve lugar hoje pelas 17h45, na Biblioteca Pública da Horta. E eu, que por virtude da distância real não pude estar presente, aqui me congratulo com a sua criação e aproveito para deixar o meu obrigado ao tenor austríaco Kurt Spanier pelo excelentíssimo trabalho que tem feito na promoção e divulgação da excelência musical que a ilha tem sabido produzir. O Concerto de Reis, que assisti a 3 de Janeiro na Matriz da Horta, foi um bom exemplo da qualidade que se produz nos Açores e até no País. E só por isso já um grande motivo de orgulho para todos os faialenses.
Crédito da foto: LBulcão

Ponta Delgada vista pelo olhar dos repórteres


Cinco olhares, cinco sensibilidades, cinco visões diferentes de uma mesma realidade insular. A exposição "Ponta Delgada na perspectiva dos repórteres fotográficos", inaugurada ontem no Palácio da Independência, em Lisboa, é a prova de que a paisagem açoriana pode ter múltiplos significados. Carlos Costa, Eduardo Resendes, José António Rodrigues, Pedro Monteiro e Victor Melo são os fotógrafos que aceitaram mostrar a sua perspectiva, um desafio lançado pela Câmara Municipal de Ponta Delgada, promotora da exposição em colaboração com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal. A mostra é composta por 40 fotografias e vale a pena ser vista mesmo por quem não é micaelense. Só até 29 de Janeiro.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Desejos para um outro futuro

Agora que o Ano Novo já entrou e o regresso à rotina tem de se fazer, deixo aqui um punhado de votos para este 2010: que os vossos sonhos se intensifiquem, para que não se sintam vazios; que os desejos se realizem, para que acreditem no futuro; que as vontades não esmoreçam, para que vejam o mundo mudar; que as forças não diminuam, para que a vida não perca a graça; desejo sobretudo que nunca percam a capacidade de caminhar em direcção ao que os vossos olhos não alcançam.
Feliz 2010!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Dias de temporal e de afectos sentidos


Perdida por entre temporais de água e ventos de gelo, aproveito para viver o que a ilha tem de melhor para oferecer: a simpatia das gentes, o afecto dos lugares amados, o calor dos amigos e o conforto da família. Por estes dias de quadra festiva, a Internet é quase um lugar distante. E até isso, de vez em quando, sabe muito bem.
Foto: Baía de Porto Pim/ Autor desconhecido

Retrato de um homem que desfiava grãos de areia

«Por entre os dedos das mãos desfias contas de areia, dourada como os infindáveis sonhos que te invadem o pensamento, negra como os fugidios desejos que te atrofiam o coração. Desfias um punhado atrás do outro, numa sequência interminável que não se limita a matar o tempo, mas antes a escoá-lo numa rede minuciosa, construída para não deixar passar pedaço algum de coisa nenhuma. Desfias e voltas a desfiar, com a concentração que se exige a uma nobre tarefa, entregue só a quem não tenha medo de respingar o pedaço de praia deserta que outros frequentam.

És um homem submerso. Pela água, pela vida, pela realidade. Nasceste com o azul no olhar, mas deixaste que a negridão te consumisse a alma com a velocidade das coisas de outro século, vagarosa e demoradamente.

Enquanto os dias pesados te escorrem por entre os dedos, gastos pela vida e coçados pelo mar, vês em cada grão de areia o que podias ter sido e não foste. Analisas cada hipótese de caminho não percorrido com a minuciosidade das coisas programadas, esquecendo por momentos que o trajecto da hipótese é nada mais do que a queda perfeita no imenso areal onde ontem foste um menino feliz.

Olhas a areia como se olhasses a perfeição. Como se dentro de cada grão encontrasses o sumo da vida que em vão procuraste no fundo do mar, onde as rochas e os corais se confundiam com os seres humanos e os humanos pareciam seres deslocados, forçados a entrar nesse teu mundo encharcado e triste.

Agora, passas os dias à porta do café, sentado de frente para os sonhos dos outros e de costas viradas para esse mar, onde em tempos te achaste por inteiro e depois te perdeste, quiçá para sempre.

Passaram muitos anos desde a última vez que sentiste na pele o rebentar das ondas. Já não mergulhas, nem ousas sequer passear na tranquilidade da maresia. Dizem que foges da água e de tudo o que ela representa.

Sentado na soleira da porta, passas os dias na companhia da barba branca que esconde o teu sorriso amarelecido. A tua pele está encarquilhada e as costas curvadas, mas o olhar carrega ainda o peso da água que um dia te desaguou no peito.

Já não desfias contas de areia, nem vasculhas os grãos que não conseguiste segurar quando buscavas os teus momentos cintilantes. Hoje, desfias apenas garrafas de cerveja, umas atrás das outras, como se nelas fosses encontrar as respostas que não encontraste no mar.

Continuas sem ligar a quem passa na rua e a não falar com os amigos de outrora, mas por toda a ilha se ouvem histórias tuas. De vez em quando, até há quem diga que te voltou a ver no fundo do mar, mergulhado nos teus anseios mais profundos, perdido por entre corais e cores brilhantes.

Não sei se são apenas histórias de mergulhadores ou quase alucinações, mas todos juram que desfiavas grãos de areia, sentado na escuridão que encharca o fundo do mar.»
Lídia Bulcão, in Avenida Marginal de 18/12/2009

domingo, 20 de dezembro de 2009

A caminho do regresso

Hoje é o dia do regresso. Não ao blogosfera, mas à ilha. E enquanto não chega a hora desse desejado avião, vou ecoando os versos de José Martins Garcia, que soube como ninguém retratar as ânsias da alma e da saudade.

«Na ilha do regresso os rostos são
Espaços onde cresce o incenso e a faia,
Ali foi a latada, ali o balcão,
Ali foi o regresso. A cor desmaia.

Na ilha do regresso os dias são
Serapilheiras gastas; e os daninhos
Arbustos crescem no que foi portão
E abraçaram as portas dos vizinhos.

Na ilha do regresso ninguém mora,
Nem há quem habilmente a reconheça.
Cercadura de névoa a rememora,
Névoa dia a pós dia mais espessa.»

José Martins Garcia, in "no Crescer dos Dias"

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Num País em que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão

O Jornal da Noite que passou hoje na SIC é um bom retrato do estado do País, cuja força produtiva pouco vale ao pé dos insultos parlamentares ou outros casos de faca e alguidar. O que vemos na televisão parece ser o que temos: uns que insultam, outros que perseguem, alguns que chegam mesmo a matar, mas nenhum que queira mesmo resolver os problemas da crise e do desemprego. Parece-me que os antigos é que tinham razão: num País em que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Personagens de carne e osso

Vejo os corpos como personagens,
que desbravo com o olhar
e compreendo com espanto.

Olho os homens como um livro,
cheio de entrelinhas
e rugas marcadas na alma.

Admiro os rostos do tempo,
cujas linhas recortadas me mostram
páginas de sofrimento.

Lídia Bulcão