sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Nova exposição de Sandra Rocha

Foto: Sandra Rocha

«Love Stream» é a nova exposição da fotógrafa terceirense Sandra Rocha, membro da Kameraphoto. A inaugurar amanhã, pelas 18h00, no Centro de Arte de São João da Madeira e para ver até 6 de Dezembro.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O peso da escuridão

«Ainda a noite não tinha caído e já estava escuro como breu. Na rua, o silêncio era ocupado pelo barafustar das folhas secas e o estalar dos ramos caídos. Os pássaros havia muito que tinham já esvoaçado em direcção a solos mais quentes. Em redor, o anoitecer que poderia ser tranquilo era, contudo, pesado. Pesado e peganhoso, como uma humidade que não se consegue secar.
O ar estava tão denso que o termómetro poderia explodir a qualquer momento, mas não era só isso. A escuridão também parecia mais pesada, mais densa, mais disforme do que me habituara. Talvez porque as luzes da cidade pareciam estar demasiado longe e a lua perdera o seu reflexo no mar. Ali, no topo da serra e no meio do nada, os olhos eram as únicas lanternas disponíveis. E a alma uma espécie de baterias de carga única, com a capacidade para entrar em auto-gestão.
Saí do carro confiante. A noite tinha tudo para ser nossa. Não esperava, contudo, que um medo repentino se apoderasse de ti. Pior: não esperava que esse medo se transformasse em pânico e te roubasse a sanidade.
Naqueles dias, tudo o que procuravas era uma noite assim. Tranquila, silenciosa, isolada. Querias fugir do mundo que te perseguia, das inseguranças que carregavas, dos traumas que trazias por resolver. Fugias para não falar, para não enfrentar, para não teres de lidar contigo próprio.
Nos momentos mais intranquilos, ias até ao porto mais próximo e ficavas a ver os barcos, que pastavam no mar chão com a tranquilidade das coisas seguras. Por vezes, paravas na praia, tentando penetrar nos segredos da espuma, como se isso fosse descodificar todos os enigmas da tua alma. Perdias horas sem fim a olhar as vagas que se enrolavam e quebravam com sequências muito pouco lógicas e ainda menos seguras para quem se quedava à beira da areia, rondando o vai e vem da água revolta, gelada de perigo.
Quando te sentias reconfortado, voltavas a casa. Não mais tranquilo como se esperava, mas mais ansioso, como se tivesses gasto a energia que te consumia a alma. Voltavas para recarregar o corpo durante o sono e de manhã despertavas novamente envolto nos dilemas de sempre.
Na rua, quem se cruzava contigo habitualmente costumava deslumbrar-se com a tua facilidade expressiva, com a tua simpatia, com as tuas tiradas inesperadas, sem contudo desconfiar que por detrás do sorriso brilhante estava uma face cravada de tormentas.
Naquela noite, as tormentas estavam pesadas como nunca e tu desesperavas. Querias fugir de ti próprio e a solução imediata era subir ao ponto mais alto que tinhas por perto. Chamaste-me então, e eu não hesitei. Deixei os amigos a jantar, entrei no carro e fui ter contigo.
Mal entraste no carro, segui pela estrada que sabíamos ser a mais segura. Àquela hora, como já era de esperar, não havia vivalma na rua. Nem naquela, nem em nenhuma das outras ruas que percorremos. Naquele momento, eram apenas longos pedaços de alcatrão, sem luz, sem gente, sem vida. Assim os encontrámos e assim os deixámos, correndo em silêncio os quilómetros que encontrámos, seguindo na estrada como um barco fantasma que traça a sua rota de sempre.
Subimos, subimos, subimos, até a estrada acabar e ficámos então a sós com a imensidão da terra e da paisagem. A lua, que se queria cheia, era nova naquela noite. Suficientemente nova para roubar a luz que te aliviaria a alma naquele instante.
Quando saíste do carro, ficaste como que assombrado. Paraste, imóvel e aparentemente alheio, como se estivesses a ver para lá da escuridão. De repente, arrepiaste-te e quiseste ir embora. Eu insisti para ficarmos um pouco mais, certa de que te faria esquecer esse breve sinal de frio. Tonta cabeça a minha que não vi o que estava na minha frente!
Ao primeiro arrepio, seguiu-se a sombra de uma escuridão estranha, que se apoderou da paisagem e da noite, parecendo engolir a terra. Por momentos, ficaste parado no vazio, a tremelicar compulsivamente. Antes que eu te perguntasse o que tinhas, entraste no carro e durante uns segundos, talvez milésimos, remexeste no saco que trazias contigo desde manhã cedo. Foi então que saíste do carro, olhaste para mim e disparaste.»

Lídia Bulcão, in Avenida Marginal de 31/07/2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Pormenores das Selvagens nos Capelinhos

São apenas dez fotografias a preto e branco e outras vinte a cores, mas valem bem uma ida ao Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, onde a exposição “Ilhas Selvagens 30º 08’ N 15º 54’ W”, de Paulo Henrique Silva, vai estar patente durante este mês de Novembro. As imagens são resultado de uma incursão feita pelo fotógrafo às Selvagens, onde registou a fauna e flora daquele território, que é Património Natural da Macaronésia.
Crédito da foto: GACS

A propósito de cinema-documental

Numa altura em que os festivais de cinema dominam as atenções nacionais (Estoril Film Fest) e regionais (Faial Film Fest), vale a pena ler com atenção o artigo do Ípsilon a propósito do "O documentário que agitou o DOC". Uma discussão aberta sobre o que é ou deve ser um verdadeiro documentário, com alguns rasgos à mistura.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A marca das coisas que importam

À velocidade que as coisas acontecem, uns dias longe da Internet parecem já uma eternidade. Mas entre a velocidade virtual e a real, há todo um misto de sentimentos e emoções que não se perdem na voracidade do tempo. Foi assim que passei os últimos dias, a descobrir um outro lado da ilha Terceira. Por entre brumas dominadoras, folias importadas e tradições ancestrais, houve tempo para sentir a paisagem, a arquitectura e as pessoas. Estreitaram-se laços de sangue, retomaram-se amizades perdidas, apreciaram-se prazeres quase esquecidos. No final, o regresso fez-se com uma tranquila incerteza. Ou não fosse a inquietude a marca das coisas que importam.
Foto: LBulcão

Um brinde ao novo Mente Livre!

Nasceu o Mente Livre, um forum de discussão política, que é sobretudo um espaço para "pensar os Açores e o país sem amarras". Nascido do espírito interventivo do blogger Carlos Faria (do Geocrusoe), este Mente Livre pretende ser "uma página de lançamento de temas para debate político, aberto e descomprometido, na blogosfera açoriana". Um lugar a frequentar, sem dúvida.

Quem me dera ter uma Câmara assim


Eu, que tenho o manjericão a crescer na varanda e acabei de plantar novas doses de salsa, coentros e oregãos em pequenos vasos, fiquei hoje com inveja dos habitantes de Ponte de Lima, a quem a Câmara vai dar lotes de terreno para criação de hortas urbanas. Ao ler a notícia só pensei: também quero uma autarquia assim!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Avenida Marginal procura talentos açorianos na BD

Faltam só vinte dias para o fim do concurso de Banda Desenhada promovido pelo jornal faialense Avenida Marginal, mas como cada dia tem 24 horas, ainda há tempo para quem não ouviu falar no evento pôr mãos à obra, que é como quem diz, lápis no desenho. O concurso pretende dinamizar a cultura de BD no panorama nacional e divulgar autores açorianos, tendo por isso várias categorias, com prémios para autores nacionais e regionais. Para mais informções, consultar o site do concurso: http://concursobdavenidamarginal.blogspot.com/.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

«AMOR com regras»


Quando fui entrevistar o pediatra francês Aldo Naouri há uns meses, tinha lido o seu livro mais recente de fio a pavio e levava comigo algumas ideias feitas, nascidas da intensa pesquisa e dos muitos ecos que encontrara na imprensa nacional e internacional. Tinha alguma curiosidade em perceber quem era este pediatra, que uns diabolizavam e outros pareciam defender incondicionalmente. Encontrei um daqueles médicos que nos consegue deixar tranquilizados com palavras. A sua sabedoria é fruto de uma experiência longa e pensada ao pormenor, mas nem por isso imune questões e polémicas. O fruto dessa conversa foi discutido com vários especialistas portugueses e publicado na revista GINGKO de Outubro, sob o título "Educar também é mandar". Mas além deste artigo, que aborda os principais erros que os pais modernos tendem a cometer, a GINGKO online diponibiliza também a entrevista a Aldo Naouri que complementa o trabalho impresso e já disponível nas bancas.

Murmúrios que precisam ser gritados

«A organização Repórteres sem Fronteiras relegou Portugal para o 30º lugar do ranking dos países que mais respeitam a liberdade de imprensa. No ano passado, Portugal ocupava o 16º lugar, a par de outros países europeus. Esta é sempre uma má notícia para os profissionais da comunicação, para os cidadãos e, sobretudo, para o estado da democracia. A medida da liberdade de imprensa é, também, uma forma de avaliação da democracia. Não há democracia sem liberdade de expressão e liberdade de imprensa.»
Pedro Gomes, Cucos e Múrmúrios, in Açoriano Oriental