terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O meu tributo aos Xutos


Aí estão eles mais uma vez, prontos para conquistar o mundo, como se já não fossem donos e senhores do rock português e dos nossos corações. Hoje, em Lisboa, os Xutos e Pontapés vão apresentar "Quem é quem" aos amigos, descortinando o novo albúm, que deverá sair em Março. Trinta anos depois, continuam iguais a si próprios. Rebeldes, interessantes, originais. Foram um marco para a minha a geração, que cresceu a ouvi-los. Fizeram-se "homens do leme" sem fugir ao "circo de feras" e, sobretudo, sem nunca envelhecer. E, hoje, trinta anos depois, provam à "vida malvada" que são absolutamente incontornáveis.
Parabéns trintões!

domingo, 11 de janeiro de 2009

As ilhas desconhecidas de Vicente Jorge Silva


Em breve, muito em breve, As Ilhas Desconhecidas vão renascer na RTP pela mão de Vicente Jorge Silva, que transformou em série de televisão a célebre viagem de Raúl Brandão aos Açores e à Madeira. Com ante-estreia agendada para o próximo dia 21, em Ponta Delgada, o ambicioso projecto de quatro episódios promete dar que falar.
Mas enquanto não estreia, aproveito para evocar aqui uma crónica do realizador madeirense, escrita com a sua talentosa pena de jornalista e o seu indisfarçável coração de ilhéu. Encontrei-a, por acaso, na revista UP (da Tap) de Agosto e não podia vir mais a propósito. Não só levanta um pouco do véu deste projecto - mantido sob enorme low-profile -, como ainda deixa no ar aquele rasto das coisas que não podemos perder.



«ILHAS DESCONHECIDAS

Faz agora precisamente um ano que iniciei uma experiência inesquecível. Durante cerca de três meses, percorri as onze ilhas habitadas dos Açores e da madeira, tendo por guia um dos clássicos mais famosos - senão o mais famoso - da literatura portuguesa de viagens: As Ilhas Desconhecidas, que Raul Brandão escreveu em 1924.
Não viajei sozinho e sem objectivo definido, entregue simplesmente à aventura, o que também poderia ter acontecido. Havia um projecto para concretizar: uma série de televisão de quatro episódios na qual eu e a minha equipa procurámos surpreender sinais do que ficou e do que desapareceu desde a viagem de Brandão.
Há 84 anos, as ilhas - sobretudo as mais pequenas e excêntricas - permaneciam fortemente marcadas pelo isolamento ancestral e por situações de imenso dramatismo humano. Todo esse panorama foi-se transformando profundamente, à medida que se generealizaram as ligações áreas e se reduziram as carências extremas em que viviam as gentes insulares.
Inevitavelmente, aquilo que era singular e específico do universo das ilhas tendeu a ser uniformizado por padrões de vida cada vez mais indiferenciados, globais. Desse ponto de vista, As Ilhas Desconhecidas descritas por Raúl Brandão mudaram essencialmente no plano social e tornaram-se quase irreconhecíveis.
Entretanto, por mais paradoxal que pareça, isso não eliminou o mistério e a magia que as torna inconfundíveis num mundo asfixiado pela uniformização. Pelo contrário, pode dizer-se que o espírito original das Ilhas Desconhecidas se afirma hoje num contraste talvez mais radical com esse mundo envolvente - fora e também dentro das próprias ilhas.
Até na Madeira, onde nasci e vivi, ou no Porto Santo, onde passei alguns verões maravilhosos numa infância já longínqua, é possível escapar ao cerco do turismo de massificado, se estivermos disponíveis para um encontro com os espaços selvagens e o tempo suspenso de uma beleza primitiva e intacta, que nos convidam a mergulhar no fundo de nós mesmos.
O apelo do desconhecido que conquistou Brandão ainda bate no coração das ilhas, incluindo aquelas que o betão turístico ameaça desfigurar. Em pouco quilómetros, passamos da trepidação do litoral da Madeira ao sortilégio das montanhas onde se respira ainda a atmosfera do velho romantismo europeu transposto para o exotismo dos trópicos e a solidão atlântica.
Na vertigem silenciosa das serras madeirenses, atravessando a floresta exuberante da laurissilva, perseguindo o som da água que corre ao longo das levadas, somos transportados para uma dimensão onde o sagrado se insinua, um desconhecido feito de paz e harmonia interiores. É tudo uma questão de desejo, de querer verdadeiramente descobrir esse desconhecido. Na ilha, nas ilhas, dentro de nós - ilhas que também somos no imenso arquipélago do mundo.»
Por Vicente Jorge Silva, in revista UP, Agosto de 2008

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Baús destrancados

Cheguei a casa sem ter regressado, como se ainda estivesse lá. Ando pela casa, perdida por entre os largos corredores da memória. Evito traçar percursos de sonho e acabo sempre em portos amargos, onde o cais de desembarque está longe de ser um abrigo seguro. Uma parte de mim quer terminar a jornada, outra insiste em prolongá-la ad eternum. Estou cansada de viagens doridas, percorridas com a força da dor fulminante e a velocidade das coisas maravilhosas. São sempre tão fugazes quanto esgotantes. Desejo-as tanto, que passo o ano a tentar esquecê-las. Hoje, decidi aterrar. Preciso deixar o velho no lugar a que ele pertence. Só assim conseguirei abraçar o novo sem baús trancados no porão.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O 2009 que eu desejo

As boas vindas a 2009 (Crédito: Agência Zero)


Regressada da ilha e da viagem pela memória dos sentidos, é tempo de entrar no futuro que o Novo Ano nos quer trazer. Mas porque este Réveillon me esqueci das passas, deixo os meus 12 desejos para 2009, na esperança de que este mundo virtual os torne eternos:


1- Que o tempo corra mais devagar do que o relógio,
2- Que a esperança floresça sem ser na Primavera,
3- Que a saúde seja mais forte do que o corpo,
4- Que o dinheiro seja o suficiente para não me tirar o sono,
5- Que o meu filho cresça livre de perigos,
6- Que o meu marido volte sempre do mar,
7- Que os laços de sangue sejam mais fortes do que a Natureza,
8- Que os amigos não esqueçam a morada cá de casa,
9- Que os inimigos me olhem sempre com respeito,
10- Que o trabalho me dê prazer,
11- Que a escrita me faça uma pessoa melhor,
12- Que quem me esteja a ler saiba aproveitar o melhor que o Novo Ano vai trazer e enfrentar de pé o pior que possa aparecer.

Feliz 2009 para todos!

domingo, 14 de dezembro de 2008

Faial à vista


De partida para a ilha, com o pensamento turvo e o corpo a pedir descanso, evoco aqui a poesia do mestre florentino Pedro da Silveira, que soube como ninguém cantar o Faial e descrever sentimentos que também são meus.

«3. (FAIAL À VISTA)


Ilha: como uma ave melancólica
Vagarosa
Desvelas-te
Num ermo de neblinas.

E é assim como se ela
(não a ilha: a tal ave melancólica)
Emergisse d’um sono
Que não teve começo.

…E é diferente de todas
Esta indecisa,
tantas vezes vivida
primeira manhã de me ausentar.»

Pedro da Silveira, Diário de Bordo, in Fui ao mar buscar laranjas

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A democracia que os açorianos merecem

O ano de 2008 ainda não chegou ao fim, mas vai ficar certamente para a história como um dos mais escandalosos de sempre na Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Depois do caso da estranha troca de presidentes da ALRA, ontem à noite o mais improvável aconteceu, quando pela primeira vez na história daquela instituição o programa do Governo foi aprovado sem ser votado pelo Parlamento. A notícia é chocante, mas infelizmente é verdadeira e legal. O novo presidente do Parlamento açoriano estreia-se da melhor forma e prova que a traição não é a sua única virtude. Mais de 30 anos depois do 25 de Abril, esta é a democracia que existe nos Açores. E a ver pela abstenção nas últimas eleições, é de facto a democracia que os açorianos merecem.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

As ilhas, segundo Miguel Sousa Tavares

Terminei hoje a leitura de "Equador", o magnífico livro Miguel Sousa Tavares, que devorei numa semana de leitura vertigionosa, vivida com a intensidade dos grandes romances. Sei que o devia ter lido há muito, mas estes quase quatro anos de espera na carregada prateleira cá de casa só fizeram bem, porque me permitiram esquecer os ecos do muito que li e ouvi sobre ele.
Terminei as suas 518 páginas absolutamente exausta, mas estranhamente reconfortada com o trágico final. Ainda no processo de digestão de tão densa obra, retive já uma frase que não esquecerei jamais.
«As ilhas são lugares de solidão e nunca isso é tão nítido como quando partem os que apenas vieram de passagem e ficam no cais, a despedir-se, os que vão permanecer. Na hora da despedida, é quase sempre mais triste ficar do que partir e, numa ilha, isso marca uma diferença fundamental, como se houvesse duas espécies de seres humanos: os que vivem na ilha e os que chegam e partem.»
A estas intensas palavras de Miguel Sousa Tavares, atrevo-me a acrescentar que falta uma terceira espécie: a dos que não conseguem deixar a ilha, apesar de estarem sempre a chegar e a partir. Essa é a minha espécie.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Pensar a vida a escrever

Reli há pouco, com prazer, a entrevista do escritor V. S. Naipaul (Prémio Nobel da Literatura em 2001) ao Suplemento P2 do Público, publicada a 26 de Novembro último, e quero aqui reter uma frase que me marcou acima de todas as outras: «Não é a viagem sozinha que nos muda, é o acto de a escrever, de pensar. Muitas vezes não sabemos o que pensamos sobre certa experiência até escrevermos sobre ela.»
Falando sobre a imperatividade do escritor viajar para conhecer o mundo, Naipul acaba por descrever a escrita como uma forma de clarificar a vida e os sentimentos que por vezes nem sabemos que temos. É como se só vivessemos plenamente aquilo sobre o qual escrevemos.
A ideia pode parecer disparatada para muitos, mas para mim faz todo o sentido. Mais do que pensar enquanto escrevo, eu penso a escrever. E sei que quando me sento a escrever sobre as experiências que vivi esse passado parece ganhar vida própria. No fundo, é como se eu própria só vivesse enquanto escrevo. Talvez por isso não hesite em dizer que se não escrevi, é porque não vivi.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Contagem decrescente


O Natal ainda vai longe, mas eu já entrei em contagem decrescente. Não para a festa, mas para o regresso ao porto de todos os abrigos. Daqui a uma semana estarei de volta à ilha, para as merecidas férias natalícias, junto às raízes e ao calor da família. Até lá, o tempo será medido pela importância dos dias em falta. Sei que as horas vão parecer minutos quando quiser agendar nelas todos os compromissos inadiáveis. Sei que os segundos vão parecer horas quando as memórias ficarem à deriva. Sei que vou arrumar as malas à última da hora e dormir mal na última noite. E tenho a certeza que quanto mais perto estiver daquele pedaço de encantamento maior será a vontade de sucumbir à vertigem da saudade.

Crédito da foto: Mário Leal

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Manhãs azedas


Não suporto este frio que faz das manhãs um calvário desnecessário. Ainda mal despertei e já me entra nos olhos com a ardência de uma cebola arisca, que insiste em mortificar a sensibilidade alheia. Do lado de dentro da janela, insisto em rejubilar com esse céu azul, banhado pelas águas macias do rio e recortado pelo verde negro da paisagem. Mas mal abro a porta da rua, entro numa guerra desigual e perco cada batalha diária para essa temperatura azeda, que insiste em cortar-me a pele ao primeiro contacto e penetrar-me nos ossos antes que eu consiga dar um passo. Respirar o ar matinal tem sido, para mim, uma tarefa complexa, rodeada de cuidados extremos e panaceias imensas. E como se não bastassem as alergias da estação, ainda tenho de aturar esse frio gélido, que insiste em fazer do Outono um Inverno cruel. Por estes dias, amaldiçoo estas estações trocadas e todos aqueles que só as sabem emaranhar.