
Muito já se disse e escreveu sobre Francisco José Viegas. Que é escritor, jornalista, cronista,
bloguista, homem de cultura e dos prazeres, amante dos livros e dos Açores. Poucos lhe chamam poeta e, sinceramente, não consigo perceber porquê, se é na poesia que mostra a sua veia maior. Resta-me apenas pensar que seja por desconhecimento, por ignorarem ainda as linhas em que o poeta derrama a sua alma. Deixo, por isso, aqui um exemplo, para que conheçam um pouco o outro lado da figura que a televisão tornou pública.
«SE ME COMOVESSE O AMOR
Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia
caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer
o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.
Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.»
in "Se me Comovesse o Amor", Quasi Edições