
Cada vez que folheio imagens do passado, sinto-me viajar para um outro tempo, quiçá outra vida. E lembro-me das palavras de José Eduardo AguaLusa, no seu romance Vendedor de Passados:
«A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em andamento. (…) São coisas que correm diante dos nossos olhos, sabemos que são reais, mas estão longe, não as podemos tocar. Algumas estão já tão longe, e o comboio avança tão veloz, que não temos a certeza de que realmente aconteceram. Talvez as tenhamos sonhado. Já me falha a memória, dizemos, e foi apenas o céu que escureceu.»
Sátira feroz à actual sociedade angolana, este maravilhoso romance é também um mergulho sem escafandro no mundo da memória e dos seus equívocos. Lembra-nos quão fácil é o passado entrar pelo presente adentro, com a força de um oceano revolto, que não mede as forças e provoca estragos. Mas também nos faz perceber quão frágeis são as recordações que constroem a nossa vida e nos preenchem os vazios.
Recomendo uma espreitadela à vida de Félix Ventura, o vendedor de passados falsos. Garanto que a leitura é vertiginosa.


