sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Um mergulho sem escafandro


Cada vez que folheio imagens do passado, sinto-me viajar para um outro tempo, quiçá outra vida. E lembro-me das palavras de José Eduardo AguaLusa, no seu romance Vendedor de Passados:

«A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em andamento. (…) São coisas que correm diante dos nossos olhos, sabemos que são reais, mas estão longe, não as podemos tocar. Algumas estão já tão longe, e o comboio avança tão veloz, que não temos a certeza de que realmente aconteceram. Talvez as tenhamos sonhado. Já me falha a memória, dizemos, e foi apenas o céu que escureceu.»

Sátira feroz à actual sociedade angolana, este maravilhoso romance é também um mergulho sem escafandro no mundo da memória e dos seus equívocos. Lembra-nos quão fácil é o passado entrar pelo presente adentro, com a força de um oceano revolto, que não mede as forças e provoca estragos. Mas também nos faz perceber quão frágeis são as recordações que constroem a nossa vida e nos preenchem os vazios.

Recomendo uma espreitadela à vida de Félix Ventura, o vendedor de passados falsos. Garanto que a leitura é vertiginosa.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Memórias de amor








Dengosas memórias que se escapam no ar
Fugidas, molhadas, perdidas sem mar

Sufocos contidos e rotas amargas
Letras da vida, saudades pesadas

Verdades perdidas na terra sem cor
Encontros sentidos e memórias de amor


Lídia Bulcão

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Adeus ao último gigante do mar açoriano

Era um homem do Pico, mas sempre se sentiu bem no Faial. Gostava de visitar a cidade que o encantou na juventude e matar saudades das conversas com os amigos de outros tempos. Entrevistei-o há cinco anos, para o Tribuna das Ilhas, e fiquei fã do homem que soube transformar a ilha negra numa obra maior.

Vitor Rui Dores chamou-lhe em tempos "baleeiro da literatura açoriana". E a verdade é que poucos souberam, como ele, trabalhar a solidão e a distância, criando perfeitas Toadas do Mar e da Terra, espalhadas por uma vasta obra literária, que vai do conto à crónica, passando pelo romance e pela poesia.

O homem que nasceu na terra das Pedras Negras e do Mar ao Rubro, a 8 de Abril de 1925, morreu hoje, 24 de Setembro, em Ponta Delgada.

Morreu o último gigante do mar açoriano. Morreu o homem e o escritor, mas não a sua obra, que se quer eterna, como eternas serão as memórias das gentes do mar que ele tão bem retratou.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Triângulo imperfeito
















Turquesa morna, azul profundo, laranja escaldante
Triângulo de uma vida feita de pinceladas
Oceano de cores tranquilas e traços marcantes
Floresta de vazios perdidos e socalcos penetrantes

Lídia Bulcão

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Pensamento de Mestre


Vitorino Nemésio não tem quem o iguale na intuição da açorianidade. Nem Raul Brandão tem quem ombreie com a originalidade das suas pinceladas. Talvez por isso seja impossível deixar de pensar neles quando atravesso o Tejo.

Não obstante desaparecidos, parece que os vejo a olhar o rio e os ouço descrever a sensação de cortar as águas. Reparam na luz, que faz o amanhecer brilhar. Reparam na cor, que se transcende e confunde o olhar. Reparam na transparência das águas, ou na imensa falta dela. E reparam sobretudo no cheiro. O cheiro que de um lado é leve e do outro marcante, que de um lado encanta a alma e do outro quase a enterra. O cheiro que, longe de ser suave e delicado, é profundo e quase revoltante.

Parece que consigo vê-los em cima do cais, parados de frente para as águas, fechando os olhos e sorvendo o ar. Consigo perceber que o respiram suavemente, como se de um delicado néctar se tratasse; que o retêm nos pulmões uns segundos, como para apurar a sua estrutura e profundidade; e que depois o expiram, com a velocidade que a idade ainda lhes permite e a repulsa que o corpo não disfarça.

E nem preciso aproximar-se mais para captar a força dos seus pensamentos mais imediatos: “Só um idiota toma este rio por mar!”

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Rotinas e novos mundos


Setembro tem sido mês de regressar, recuperar, redecorar, reorganizar, enfim, de recomeçar. Retomam-se algumas rotinas, mas também se dão novos passos, em direcção a outros futuros, que esperamos sempre melhores.

Para o meu filho, esses passos estão a ser bem maiores. Levam-no à primeira escolinha, ao pátio das brincadeiras e à cadeirinha dos saberes. É bom, é necessário, mas também é duro.

Deixá-lo lá pela manhã custa tanto como se o estivesse a enviar para o outro lado do mundo. E daí que não está longe da verdade. É ali que ele vai de facto partir para o mundo, para o seu mundo. A partir de agora, nada será como dantes.

Verão na ilha





Foi bom poder mergulhar sem sentir os ossos a quebrar. Foi bom poder brincar sem deveres para cumprir. Foi bom poder inspirar sem ter o ar atravessado. Foi bom poder relaxar sem o peso da vida. Foi bom, muito bom. Mas mais uma vez soube a pouco. As férias acabaram e o Verão está a ir embora. Vale-nos a ilha, essa, que vem cada vez mais dentro de nós.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O poder dessa avenida

«Percorro a avenida de lés a lés, com a velocidade que o pensamento permite e a saudade que o coração aguenta. Já lá vai quase um ano que não lhe sinto a calçada, nem lhe gabo a vista. Mas nem por isso deixei de lhe cheirar o ar de maresia, de lhe ouvir o estalar das ondas no paredão, ou de me arrepiar com os salpicos daquele mar.

Mesmo de olhos fechados, consigo sentir o rossio no ar e o salitre na pele. Mesmo de olhos fechados, consigo saborear o salgado dos lábios, que incessantemente pedem água para matar a sede. Só que esta sede não se mata apenas com água, porque a doçura do líquido não extingue a sagacidade da alma, que não dorme sequer a pensar no que o corpo lhe pede.

Mas será que pode o corpo pedir o que a distância não deixa ver? Pode a alma sofrer com a ausência do que não tem? Não só pode, como exige, como anseia desesperadamente. Como se disso dependesse a sua existência. Como se todo o mundo não bastasse para a saciar. Como se a força do mar sugasse a seiva do corpo e dele fizesse uma pedra de sal, pronta a desfazer-se ao mais pequeno estremecer.

Agora, de olhos abertos, percorro o Tejo, o Sado, o Douro, o Sena e o Tamisa. De olhos abertos, vejo o mar de Sesimbra, de Setúbal, do Algarve, do Mediterrâneo e até do Adriático. Mas, por mais que abra os meus olhos e desperte os mais profundos sentidos, não consigo captar o que os meus olhos vêem quando estão fechados, pairando sobre a marginal dessa inquieta avenida, que insiste em mergulhar no mar todos os meus pensamentos e vontades de ser.»

Lídia Bulcão, in jornal Avenida Marginal, 4/7/2008

segunda-feira, 7 de julho de 2008

"Fôlegos urbanos quase reais"



Título: Praça de Londres
Autora: Lídia Jorge
Editora: Dom Quixote
Preço: €10



«O último livro de Lídia Jorge é a prova de que os contos ainda vivem na literatura portuguesa. Em cinco breves histórias, a autora mostra que nem só de grandes romances vive a sua escrita, que aqui se molda com detalhes e emoções profundas. Destaque para os contos Praça de Londres - que dá nome à colectânea - e Perfume. O primeiro é de uma ternura sôfrega, tal como são sôfregos os beijos com que o homem grisalho devora a criança pequena, e o segundo é uma perfeita história de amor, contada pela memória de uma infância feita de ausências e desencontros. São histórias quase reais, urbanas e intemporais.»
Lídia Bulcão, in jornal Meia Hora, 07/07/2008

terça-feira, 10 de junho de 2008

Mundo esquizofrénico


@Mário Leal


Linhas cruzadas, traços emaranhados,
pontos escuros e gritos histéricos.
Vidas confusas estas que se perdem,
enlouquecidas na voracidade dos dias.
Lídia Bulcão